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Generosidade e afluência

Você está exasperado com a pressão para fazer compras nesta época do ano, as expectativas de presentes e a contração do seu PIBinho individual? Eu também. Quando confrontado com algum pedido de uma organização de caridade murmura para si mesmo, mal dá para fazer isto ou aquilo, não sobra nada para os outros?

LÚCIA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2014 | 02h04

Sinto muito, esta desculpa precisa dar uma volta ao mundo a bordo de estatísticas. Dos 7,2 bilhões de habitantes do planeta, 1,4 bilhão doou dinheiro em 2013, e, não precisamos de pesquisa para saber que a esmagadora maioria não tem folga no orçamento.

Entre os 20 países do mundo com maior generosidade per capita, só cinco deles fazem parte do G20 - o Brasil está em nono lugar, os Estados Unidos em segundo e, adivinhe, quem é o primeirão? Índia. Está tudo no relatório de 2014 da Charities Aid Foundation.

O período entre o feriado de Ação de Graças e o Natal nos Estados Unidos é responsável por um terço de todo o dinheiro doado no país. Graças ao sistema de impostos que permite deduções, frequentemente de 100% da quantia doada, somos caçados por telefone, correspondência postal e eletrônica. A intensidade das solicitações aumentou também como resultado da intolerância de conservadores ao financiamento de cultura.

Em Nova York, o efeito do crash de 2008 em Wall Street foi evidente quando patronos milionários de instituições como a Metropolitan Opera House quebraram ou sumiram e organizações de assistência a homeless passaram apertos.

Mas, depois do choque inicial, veja o aconteceu, de acordo com a análise de declarações de imposto de renda feita por uma ONG que analisa filantropia: a classe média americana, até hoje sofrendo efeitos da pior crise desde a Grande Depressão, passou a abrir mais a carteira do que os ricos. Os americanos doam uma média de 3% de sua renda anual a diversas causas. De 2006 a 2012, quem ganha mais de US$200 mil por ano reduziu suas doações em 4,6%. Já quem ganha menos de US$100 mil por ano aumentou as contribuições em 4,5%. E os aumentos, quando analisados por Estado, foram maiores em locais mais devastados pela recessão. Outro número que pode surpreender: os Estados mais generosos não votaram em Barack Obama em 2012 e sim no milionário republicano Mitt Romney. Ele é visto como insensível ao sufoco dos desfavorecidos, um verdadeiro Ebenezer Scrooge de Um Conto de Natal, de Charles Dickens.

O grau de generosidade individual, tanto em forma de doações como em trabalho voluntário, depende menos da riqueza de um país do que da cultura e também da religião.

A explosão do chamado terceiro setor tornou as ONG's beneficiárias de todo tipo de ritual de passagem. Já era comum receber o anúncio da morte de alguém com o pedido para, no lugar de flores no funeral, enviar qualquer quantia para uma organização preferida do defunto. Mas agora as doações incluem até aniversários. Um amigo meu ganhou uma baita festa de 50 anos e, no convite, pedia que ninguém trouxesse presente, doasse para uma ONG médica especializada em aids. O convite de casamento de dois nova-iorquinos que conheço vinha com uma lista pequena de presentes para sua casa e sugestões de cinco fundações (escolhi uma que apoia reprodução feminina, sob assalto do Congresso).

O impulso filantrópico entre os afluentes não está associado a um desejo de redistribuição de renda, escreveu num trabalho de pesquisa Rob Reich, um professor da Universidade de Stanford, na Califórnia. Ele é uma forma de expressão individual que representa valores morais e até idiossincrasias.

Não é preciso ser afluente para, mesmo sob pressão financeira, se separar do próprio dinheiro com a motivação de prioridades. Quando o furacão Sandy arrasou trechos da costa de Nova York e Nova Jersey em 2012, a enxurrada de doações e voluntarismo foi extraordinária. Infelizmente destinei minha doação à Cruz Vermelha americana para descobrir, mais tarde, a organização envolvida num escândalo de gerência de fundos de vítimas da tempestade. É o outro problema da indústria da caridade. Você acha que está comprando um cobertor quando, de fato está pagando pelo coquetel de camarão num jantar de arrecadação de fundos. Mas, graças a vários websites, é possível monitorar as finanças de ONGs e saber quanto chega de fato, a quem precisa.

A pessoa mais jovem da minha família está aprendendo a andar. Quando aprender a ler, saberá que uma quantia modesta foi doada em seu nome à Associação Saúde Criança, a ONG brasileira com vários prêmios no exterior e que acompanho há mais de 20 anos. Espero que se lembre mais do presente que deu do que de qualquer um que receber este ano.

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