Gênero porno-erótico cresce no mercado editorial

Em tempos de Cicarelli, pode pareceraté trivial falar de sexo verbal - as imagens serão sempre muitomais eloqüentes. Mas a literatura vive um momento quente nosetor. É a velha literatura de sacanagem, agora revestida de umverniz civilizatório: capas transadas, traduções caprichadas,versões em quadrinhos chiques, formatos ousados. Há muito tempo não se publicavam tantos títulos, emboraessa seja uma avaliação empírica. Os últimos dados da CâmaraBrasileira do Livro abordando "livros sobre sexo" são de 2002 e2003, e mostravam uma redução na tendência (em 2002 foramproduzidos 25 títulos, com 110 mil exemplares, e no ano seguinte foram 15 títulos e 50 mil exemplares). Segundo a Assessoria de Imprensa da CBL, desde então oeditor é que passou a classificar os gêneros que publica, e eletem evitado categorias estigmatizadas, como "auto-ajuda", porexemplo. O livro de Bruna Surfistinha, "O Doce Veneno doEscorpião", um dos maiores sucessos editorais atuais do mercado,e que é francamente porno-erótico, é classificado simplesmentecomo "biografia". Mas 2005 e 2006 parecem ter injetado um novo ânimo nogênero, seja lá que nome ele tenha adquirido. O frisson começouno ano passado, com o lançamento de um mangá (história emquadrinhos japonesa), "Sade", da artista underground japonesaSenno Knife. O material era inspirado nos contos eróticos doMarquês de Sade, dos Irmãos Grimm e de Pauline Réage. Com arteno estilo shoujo (mangás femininos), a obra adaptava históriasinéditas, entre elas Justine, baseada no conto de Sade "LesProspérités du vice" (ou "Les Infortunes de la vertu"). Entre diversos títulos da Conrad (como "Garotas deTóquio", de Frédéric Boilet, "Clic 1", de Milo Manara, e "Omaha,a Stripper", de Reed Waller e Kate Worler), chama atenção uma HQporno-chique: Giovanna Cassotto, que se vale do hiperrealismo(os desenhos são tirados de fotografias, e a autora usa seupróprio corpo como modelo) para dar um novo alento ao velho"catecismo" - as situações são irônicas, mas o sexo comparecesem papas nas línguas. "O erotismo que tenho em mente é composto de atitudesfemininas, atitudes precisas, inspiradas nas pin-ups dos anos50", diz a autora, Giovanna Cassotto. Outra série ambiciosa é a Coleção Devassa, da AzougueEditorial. Segundo o editor, Sérgio Cohn, a coleção nasceu deuma conversa de bar (o Devassa do Jardim Botânico, no Rio deJaneiro) entre ele, Ana Luiza Beraba (com quem divide aorganização da coleção) e o tradutor Bernardo Esteves, quetraduziu o livro "Manual de Boas Maneiras para Meninas", dePierre Louÿs. "Estávamos comentando quanto apreciamos literaturaerótica, e como as coleções desse gênero no Brasil serestringiam aos livros clássicos, deixando de lado toda aexcelente literatura erótica contemporânea. Decidimos, então,criar uma coleção com nossos títulos de predileção. A idéiadesta coleção erótica veio, como não poderia deixar de ser, doprazer. No caso, o nosso prazer como leitores de livros eróticos" O mais interessante é que Cohn conseguiu um patrocínioperfeito: uma cervejaria animou-se a bancar toda a série, mascom uma exigência bem definida. "Não nos furtamos à tentação debrincar com a tênue linha entre a correção e a subversão, omoralismo fácil e a ousadia, fazendo uso muitas vezes deprojetos culturais para questionar padrões prestabelecidos",discursa Cello Macedo, diretor executivo da cervejaria Devassa.Segundo os editores, sua intenção é trazer à tona não só textosinéditos, mas também outros fora de catálogo, raros, underground alternativos, de vanguarda e malditos que estejam inseridosdentro de um universo erótico-pornô. Diversos livros de teor erótico invadiram as listas demais vendidos nos últimos anos. É o caso de "A Casa dos BudasDitosos", de João Ubaldo Ribeiro, "Hell - Paris 75016", deLolita Pille, "Cem Escovadas antes de Ir para a Cama", deMelissa Panarello, e "O Doce Veneno do Escorpião", de BrunaSurfistinha. "Agora, da lista acima, apenas o livro do João Ubaldo éestritamente de ficção", diz Sérgio Cohn. "Os outros se propõema ser relatos mais ou menos verídicos." Segundo o editor, suanova coleção, com Cassandra Rios, Pierre Louÿs e Almodóvar,aproveita-se de duas vertentes: a imaginação e o voyeurismo.

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