Gays fazem protesto contra Rede TV!

"Professor gay leva pau de alunos". "Notícia triste faz rapaz desmunhecar". Estes são títulos de algumas das pegadinhas na TV que têm causado polêmica e protestos nos últimos dias - um desses protestos deverá ter desdobramentos no próximo dia 31. De um lado, a Rede TV! e três programas exibidos pela emissora: SuperPop, apresentado por Luciana Gimenez, Te Vi Na TV, de João Kléber, e Programa do Sérgio Mallandro. Do outro, ONGs representantes da comunidade homossexual, alegando que as pegadinhas mancham a imagem dos gays e incentivam o preconceito."A tevê brasileira infelizmente não reflete a realidade a respeito dos homossexuais no Brasil. Ou existe um complô do silêncio contra temas sérios e personagens dignos e respeitáveis, ou se veicula apenas o estereótipo", considera Luiz Mott, professor de antropologia na Universidade Federal da Bahia e fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB).A Associação da Parada do Orgulho GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) de São Paulo tem liderado as manifestações contra as pegadinhas. Além de cartas abertas propondo o boicote aos anunciantes dos programas, marcou para o dia 31 de janeiro uma manifestação em frente à Rede TV!.Num dos manifestos, a Associação da Parada defendeu que "quem produz e reproduz o preconceito é também preconceituoso". "Dois patrocinadores mandaram comunicados dizendo que não aprovavam o conteúdo das atrações e que não vinculariam mais suas marcas a elas", relata Nelson Matias Pereira, coordenador da ONG.Outra vitória da entidade foi um comunicado de Sérgio Mallandro dizendo que não veicularia mais pegadinhas com homossexuais. "Demos uma brecada, pois eles pediram. Por enquanto, não faremos mais, até porque o perfil do programa mudou", declara Marcelo Gianni, produtor do programa. Paulo Vieira, assessor de Luciana Gimenez, afirma que a apresentadora respeita muito a comunidade gay. "Muitas vezes, não é o apresentador quem define o conteúdo do programa", lembra."Isso é uma brincadeira" - João Kléber, por sua vez, declarou, através de assessoria, que continuará a apresentar as pegadinhas com homossexuais. O apresentador sustenta que, se o programa faz brincadeiras com heterossexuais, fará também com homossexuais - poupá-los, sim, "seria uma discriminação". A produção do programa se abstém de fazer pegadinhas apenas com "deficientes mentais e deficientes físicos, pois seria uma ridicularização"."O homossexual é sempre ele mesmo propício à brincadeira. Estão colocando nesta história um peso que não existe no humor. Isso é uma brincadeira", defende a assessora do apresentador, Sandra Zatz. "Brincadeira? Ora, este foi o mesmo argumento usado pelos meninos que mataram o índio pataxó em Brasília", rebate Pereira.Pereira classifica a imagem que os gays têm na TV como "muito ruim". "A mídia nunca tratou nem tem vontade de tratar a homossexualidade de forma respeitosa. Nunca temos afetividade, somos sempre fúteis e voláteis. Servimos apenas para alegrar a família brasileira no horário nobre. Somos o bobo da corte.""A insensibilidade dos telespectadores e das entidades e orgãos de direitos humanos em relação aos direitos e à dignidade dos homossexuais é chocante. Se pegadinhas muito menos exageradas fossem feitas com negros, judeus ou deficientes físicos, certamente os órgãos de controle da mídia já teriam tirado do ar essas peças televisivas", acrescenta Mott. "Devemos lutar para que a mesma sensibilidade politicamente correta em relação à raça e gênero motive as pessoas a ver essas pegadinhas como munição para atos de discriminação e violência contra os homossexuais." Sobre os manifestos, Pereira assegura que o movimento começou com as pegadinhas, mas não vai parar por aí. "Vamos cobrar dos órgãos públicos", promete.

Agencia Estado,

21 de janeiro de 2003 | 10h00

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