Gays depois do armário

Três filmes de diferentes épocas resumem história da liberação homossexual nos últimos 40 anos

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h09

A história da liberação gay na América, nos últimos 40 anos, pode ser resumida em três DVDs simultaneamente lançados: Os Rapazes da Banda (1970), Parceiros da Noite (1980) e Meu Querido Companheiro (1989). Os dois primeiros, coincidentemente, foram dirigidos pelo cineasta norte-americano William Friedkin, mais conhecido por ter realizado O Exorcista (1973). O último, Meu Querido Companheiro, foi o filme de estreia do diretor Norman René (1951-1996), que morreu vitimado pela doença de que trata seu filme, sobre o advento da aids (em 1981).

O que liga um filme sobre a atribulada comemoração de um aniversário gay (Os Rapazes da Banda), outro sobre crimes praticados por um serial killer (Parceiros da Noite) e um terceiro sobre o vírus da aids pode render tanto um longo estudo sobre a liberação dos costumes nas últimas quatro décadas como a constatação de que todos os três ajudaram a formatar uma estética homossexual. Os Rapazes da Banda, peça de Mart Crowley que estreou em 1968 e deu origem ao filme, provocou certo barulho, teve várias remontagens, mas seguiu como curiosidade arqueológica depois de Stonewall - o histórico confronto (1969) entre policiais e frequentadores do bar de mesmo nome no Village, Nova York, que representou o marco zero do movimento pelos direitos dos gays nos EUA.

Parceiros da Noite (Cruising) foi boicotado por militantes desse movimento, que identificaram no projeto de Friedkin uma tentativa de associar os excessos da comunidade homossexual nova-iorquina à onda de assassinatos em série, relacionando o submundo do crime ao estilo alternativo de vida dos gays. Friedkin, inicialmente, não demonstrou interesse em filmar a história, até descobrir que um dos atores do seu O Exorcista, em 1973, era assassino e cometeu crimes semelhantes aos descritos pelo repórter Gerald Walker no New York Times. Walker, que viria a ser o roteirista do filme, investigou, em 1970, crimes de um serial killer que matava a facadas frequentadores dos bares sadomasoquistas explorados pela Máfia, em Nova York.

Em Meu Querido Companheiro, quem mata é um vírus. Mas um vírus, obviamente, não tem moral. A longa cadeia que vai de 1970 a 1990 - ou seja, dos anos hippies ao flagelo da aids - é coberta pelos três filmes numa sequência de comportamentos autodestrutivos que ligam seus personagens ao desejo de morte física provocado pela sensação de linchamento social. Pela ordem cronológica, Os Rapazes da Banda reúne oito homossexuais problemáticos, de um alcoólatra narcisista a um neurótico aniversariante que recebe de presente um michê com dois neurônios (Robert La Tourneaux ficou tão marcado pelo papel que virou prostituto e morreu em consequência da aids, em 1986). A peça de Crowley lida com estereótipos, mas descreve bem o espírito de uma época conturbada (Maio de 1968, Guerra do Vietnã) em que a autoafirmação acena como uma saída escapista dos conflitos sociais: há o católico consumista devedor de bancos e dependente de álcool, o afrodescendente apaixonado pelo filho da patroa, o recém-divorciado que agora vive com um homem, o gay caricato que diverte a turma e até um ex-colega de universidade do anfitrião, que o procura num momento de crise conjugal. Todos reunidos numa festa que acaba mal.

Friedkin, oportunista, abre Os Rapazes da Banda com Anything Goes, clássico de Cole Porter cuja letra é uma espécie de crônica musical das mudanças de comportamento. A associação do antigo "vale-tudo" porteriano com o dos "rapazes da banda" parece responder pela curiosidade algo mórbida do diretor não só sobre o mundo gay de Nova York, mas especialmente o submundo de Parceiros da Noite. Rodado em locação - mesmo com militantes do movimento gay atrapalhando as filmagens -, Parceiros da Noite foi mal recebido pelos homossexuais em seu lançamento. No entanto, conheceu um novo público após ser restaurado, em 2007, e apresentado em Cannes. Violento, com uma trilha sonora punk, o filme transforma Al Pacino num policial destacado pelo chefe, Paul Sorvino, para investigar uma série de crimes envolvendo gays. Friedkin usa o tema como pretexto para fazer um peep-show destinado a voyeurs com interesse por roupas de couro e sexo coletivo. Não tem o mínimo interesse em denunciar crimes contra gays mutilados, que, aliás, permanecem sem solução até hoje.

Já Norman René parece mais envolvido - até mesmo por sua condição - em testemunhar como a aids transformou o comportamento sexual dos gays depois de 1981. Meu Querido Companheiro funciona como registro de uma época em que um encontro amoroso poderia significar a morte. E ele acompanha a vida de amigos que vão morrendo um a um, perdendo a batalha para a aids. A nova geração, que cresceu com o vírus, ainda tem muito a aprender com ele.

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