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Gay mau e enrustido chega à novela

Em 'Amor à Vida', próxima das 9 na Globo, Mateus Solano é homossexual que usa mulher e filha para parecer respeitável

CRISTINA PADIGLIONE, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2013 | 02h10

Um gay que não é bonzinho. Uma evangélica que tem passado de periguete. Amor à Vida, a próxima novela das 9 da Globo, de autoria de Walcyr Carrasco, apresenta uma leitura inédita desses dois tipos, pelas interpretações de Mateus Solano e, estreante na casa, da ex-MTV Tatá Werneck. Aliás, Félix, personagem de Solano, não se contenta em abandonar a pecha de gay bacana que povoa os folhetins: ele é mau, muito mau, tem inveja da irmã (Paolla Oliveira) e, o mais inédito nesse retrato noveleiro, é enrustido.

Félix é casado com Bárbara Paz e é pai de uma garota. Filho de Antonio Fagundes, quer derrubar a irmã no poder dos negócios da família, no caso, um hospital. O público perceberá ainda no início da novela que se trata de um marido fechado no armário. Da estreia, no dia 20 de maio, até que os primeiros sinais do dissimulado Félix apareçam, não mais que três capítulos terão se passado. "Mas fui instruído a não falar muito sobre a questão do gay enrustido", diz Solano ao Estado, indicando certo cuidado do comando da novela em permitir que o público o conheça antes pela tela, e não por seu discurso.

"As pessoas estranham o jeito excêntrico do Félix, ele faz piadas fora de hora, faz brincadeiras com a pessoa ali no leito do hospital, e aí dizem: 'Isso é brincadeira que se faça nessa hora?'. E ele fala: 'Ah, gente, brincadeira, só pra descontrair o ambiente'. Ao mesmo tempo, tem essa desconfiança da sexualidade dele, mas que ele quer proteger, ele tem mulher, tem filho. O fato é que essa mulher e esse filho são um álibi para mostrar que ele é um homem de família." Está feito um núcleo que promete causar controvérsias.

Mas elas ainda não vieram, garante o autor, "de maneira alguma, pelo contrário, sinto uma grande curiosidade a respeito do personagem". Carrasco, que está estreando na faixa das 21 h da Globo, conta que a ideia de retratar um homossexual não assumido surgiu "a partir da observação da realidade". "Embora hoje os grupos defensores dos direitos GLBT tenham muita força, isso contribui para dar uma impressão de que 'está tudo bem', o que não é verdade, o preconceito e a discriminação continuam", completa, "e a pior forma de preconceito é a que o indivíduo tem em relação a ele mesmo".

O fato de ser dissimulado sobre sua sexualidade bem poderia ser um indicativo automático do caráter, mas Carrasco foge das generalizações. "Uma novela é uma novela, uma história é uma história. Generalizações devem ficar a cargo de pesquisadores, capazes de quantificar opiniões e formas de comportamento. Estou contando uma história, não falando sobre a humanidade em geral."

Enquanto isso, Solano se põe a observar o mundo à volta. Vem lendo o livro Efeito Lúcifer: "Tô pesquisando coisas sobre maldade, como é que uma pessoa é capaz de passar por cima de tudo e todos pra atingir seus objetivos, como é a sedução pelo poder. É o mal na sua essência, o mal como ferramenta", conta o ator. Já no quesito sexualidade, conta que não é necessário ler ou pesquisar nada. "A própria vida da gente é um laboratório porque o mundo é gay, eu não fui procurar nada sobre homossexualidade porque estamos cheios de exemplos ao nosso lado", ressalta.

Senso de humor. Solano conta que Walcyr criou Félix "muito engraçado, um cara que fala as coisas que quer, do jeito que quer". E adianta que pela primeira vez a Globo vem colocando à disposição de todo o elenco um preparador de ator, Sérgio Pena, durante a novela toda. "Não quero partir disso. Normalmente ele fica só um mês com a gente, agora não: isso vai ser muito produtivo", aposta.

Solano adianta que a novela terá "muitos gays". "Tem casal gay, gente assumida e enrustida. Acho que a homossexualidade vai ser mostrada de uma forma natural, como tem que ser."

Não que essa naturalidade signifique passaporte livre para o tão comentado beijo gay de novela, aquele que sempre ameaça aparecer e nunca vinga. Walcyr dispensa tese sobre o tema. "Não tenho opinião formada. Saberei responder quando as pessoas aceitarem beijos gays nas ruas, nos shoppings, nas empresas", conclui o autor.

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