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Ignácio de Loyola Brandão
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Gato vítima da crise hídrica

Quem primeiro teve de compreender e sofrer com a crise hídrica - lindo nome criado para nos iludir - foi Chico, meu gato de rua, por nós adotado há 13 anos. Vocês sabem que animais são sistemáticos. Sofrem de Transtorno Obsessivo Compulsivo, TOC. Levam isto às últimas consequências. Entram numa e não há terapeuta de gatos que consiga tirá-los.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2015 | 02h09

Chico, entre os vários TOCs adquiridos, tem um, essencial. Vindo ainda daqueles anos de felicidade, quando podíamos tomar banho, regar o jardim, limpar as janelas, lavar o rosto, ou as mãos, arrumar a cozinha, beber água que não vinha do terceiro volume morto.

Não sei como começou ou quando, porém um dia Chico descobriu que a tigela de água não era tão interessante para ele mitigar (esta palavra é boa, mitigar) a sede. Um de nós foi culpado. Porque Chico, fascinado com a torneira deixada incidentalmente aberta, da qual corria um fio de água, mínimo, saltou para a pia e começou a tomar daquela água fresca. A língua, rápida, recolhia bocaditos e - vejam que horror - achamos graça.

Tenho culpa ao pensar hoje em quantos litros foram vazados da Cantareira ou sei lá de onde vem a água para este recanto da cidade. Mas era tão saudável, tão puro, tão bonito um pequeno gato preferindo a água fresca e não aquela da tigelinha, quente, empoeirada - porque a poluição de São Paulo chega mesmo dentro de casa, em camadas sucessivas. O bichinho se acostumou, tinha um relógio biológico infalível, naquela exata hora da manhã e da tarde, saltava para a pia e esperava. Alguém abria torneira para ele. Deixava um filete mínimo, quase nada.

Mas posso jurar que Chico não fraudou, nem provocou a crise. Essas gambiarras, muitas feitas por técnicos aposentados ou demitidos da Sabesp, roubaram mais água que o gato. Roubaram mais água do que os petrolões conseguiram em dinheiro para os cofres do PT. Vocês notaram que graças ao Eike Batista e a Petrobrás o termo bilhão tornou-se ninharia? Moedinha de troco? Parece que não é nada. Todo mundo fala em bilhão como se fosse trocadinho, pocket money, como dizem os americanos.

Voltemos ao Chico, que está passando por um período de superação, palavra que o marqueteiro de plantão da Dilma - esse é que nos engambela, nos leva no bico - usa com deleite. No primeiro dia, Chico subiu à pia e me olhou. Entendi, mas expliquei, em palavras as mais simples possíveis, que a crise tinha chegado e devíamos economizar água. Lamentava, não podia abrir a torneira. Gato, quando quer, entende. Quando não quer, faz cara de bobo. Não sei se ele entendeu, mas saí em seguida para um trabalho. Quando voltei, duas horas depois, o bichinho continuava na pia, imóvel. Busquei a tigelinha e ofereci, ele cheirou, não quis. Miou mansamente, me doeu o coração. Expliquei de novo e ele ficou me olhando com aqueles olhos verdes de gato de rua bem tratado. Olhos de gato súplices são tremenda chantagem.

Apanhei o animal com cuidado, levei-o para o chão, coloquei a tigela em frente, ele cheirou, recuou, pulou para a pia de novo. Miou mansinho. Dei as costas, desapareci. Se a sede insistisse ele deveria aceitar a água. Nas crises, todos devemos ter nossa cota de sacrifícios.

Fui fazer um texto, esqueci o gato. Ao voltar, lá estava ele sobre a pia, esperando. Disse:

- Sinto imenso, meu caro. Mas, certamente, você será a primeira baixa provocada pela crise hídrica. Ou deixa esse reflexo condicionado de lado, ou vai secar junto com a Cantareira. Não posso fazer nada. Pensou se todos os gatos desta cidade quiserem tomar água da torneira?

Chico miou, raivoso. Entendi, juro que entendi, depois de um tempo entendemos o que nossos bichos dizem.

- Crise hídrica? Olha aqui! Pare de se enganar. De querer me enganar. Não posso beber água? Está bem. Ficarei aqui até secar. Farei greve de sede. Chame a televisão. Quero terminar minhas sete vidas nas telas do Brasil, na internet. Se ninguém se comover, não quero mais pertencer a este mundo. Humanos? Pois sim!

Tentei tudo, minha filha adulou, minha mulher mimou, gatos são determinados. Não posso e não vou abrir aquela torneira. Quando sin to sede e vou ao pote, faço em um momento em que o Chico não esteja por perto. Cada manhã corro sobressaltado para a cozinha, esperando o pior. Agora, procuro um artesão que me faça um suporte para uma garrafa de água mineral, que ficará de ponta cabeça, junto à torneira da pia. Não precisa ser Perrier, nem San Pellegrino, nem Pedras Salgadas, nem Evian, nem Vichy. Ele foi educado na simplicidade. Se não morrer antes.

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