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Gasguitos na gagosa

Famílias têm palavras que circulam apenas entre suas paredes. A sua também?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2018 | 02h00

Se você me permite o tom sentencioso, direi que toda família tem seu jargão particular. Palavras e expressões encravadas lá no fundo da infância, ouvidas desde sempre dos pais, tios, avós. Um dia, numa roda, você saca uma dessas prendas verbais, sem se dar conta de que está dizendo coisa que não faz ali qualquer sentido. E em muitos casos, não adianta correr ao dicionário, pois a pérola em questão não está no Houaiss, no Aurélio, no Caldas Aulete, no Michaelis, no Laudelino Freire. Ou está, mas para designar coisa muito diferente.

Nem precisa ser jargão familiar. Mineiro vivendo em São Paulo há quase meio século, ainda não encontrei na terra quem conheça, por exemplo, a expressão “apertado de costura”, de uso corrente na terra onde nasci. E me parece tão transparente: a pessoa vai à costureira, pedir barra na calça ou no vestido, e ela não pode pegar o serviço, pois está apertada de costura. Também não consigo emplacar a expressão “vertigem de sobreloja”, modesta criação para designar o que acomete quem subiu um lance de escadas e já se sente com direito a uma vertigem de altura.

Cada vez mais ligado em palavras, e temeroso de que possam evaporar-se da memória, criei o hábito de registrar meus fantasmas verbais. Volta e meia recorro aos irmãos e irmãs, e é uma bênção que sejamos tantos a esta altura da vida, 9 integrantes de ninhada que já teve 11. Garimpeiro de palavras de uso doméstico, portanto condenadas a desaparecer com quem as utiliza, vou engordando meu léxico familiar, no afã de preservá-lo. 

Ultimamente, a curiosidade transbordou para as sesmarias vocabulares de outros clãs, e o lexicógrafo amador deu de importunar também os amigos. Não leve a mal se estendo aqui o alcance de minhas indagações de maluco benigno, dirigidas a partir de agora a desconhecidos que em breve serão amigos. Quase posso apostar que também na sua família circulam palavras que ali têm sentido próprio, que este intrometido adoraria conhecer.

Tive a sorte, entre muitas, de me criar onde a conversação era cravejada de particularidades tão fascinantes quanto ininteligíveis ultramuros. Exemplo? Palanfrão, esquisitice de uso exclusivo, que eu saiba, da família de meu pai, constituída por dois cariocas radicados em Belo Horizonte (quase digo radicalizados, pois a cidade tinha apenas 9 anos de fundação). 

Cheguei a pensar que se tratasse de um carioquismo perdido nas Gerais. Por mais que procure entre nativos do Rio de Janeiro, porém, ainda não encontrei quem saiba me dizer o que seja palanfrão, esse quase palavrão que na casa da vovó Dora e do vovô Hugo designava assadeira, ou, em Minas, tabuleiro, desses de assar pão de queijo. O vocábulo mais próximo a que me levaram os dicionários é palanfrório, “conjunto de palavras ou conversa desconexa, sem importância; bolodório”, e, em outra acepção, “verbosidade ardilosa”. 

Consultado, o primo Alvaro conta que sua mãe, Gilda, irmã do vovô Hugo, para referir-se a algo semelhante, dizia palangana – palavra que o Houaiss descreve como “recipiente de barro ou metal, largo e pouco profundo, onde eram servidos os assados”. O dicionário arrola também “tigela grande; malga”, “xícara grande” e “comida mal preparada” – o que, posso garantir, não faria justiça à excelente mesa dos Furquim Werneck, fosse nas Minas adotivas de meu avô, fosse na Porto Alegre da tia Gilda.

Bem mais rica em exotismos dessa natureza é minha família materna, na qual circula ainda uma linguagem tão inventiva quanto saborosa. Quando machucou o rosto numa queda, foi nestes termos que o vovô Santos, homem discreto e elegante, avaliou os estragos: “Anarquizei a fachada...” Em sua casa, o substantivo “paladar” ganhou significado adicional no dia em que a empregada, vendo a tia Nathalia sentar-se na poltrona, tirar os sapatos e descansar os pés numa banqueta, exclamou: “Oia o paladar dela, gente!” 

Pessoa muito feia merecia a observação de que “a natureza não ajuda”, seguida de piedosas reticências. Em casos extremos, poderia o estrupício ser considerado “cubu de minha terra”, epíteto cuja origem até hoje ignoro. Cubu, isto já sei, vem a ser um alimento à base de fubá assado em folha de bananeira que se usava servir aos tropeiros no café da manhã. Conheço quem comeu e adorou. O aspecto, contudo, talvez fosse assustador, quem sabe mesmo repulsivo, suficiente para incluir o cubu no rol dos alimentos bons de comer e péssimos de ver, como a maniçoba, deliciosa mas com visual de coisa que já foi comida. 

Na minha casa, onde na infância bunda era “lalá”, com uma sílaba para cada gomo, o mesmo acidente geográfico corporal, quando avantajado, podia ser também “tundá”. No glossário saboroso da dona Wanda, seios vultosos eram descritos como “almanjarra”. Vestido ancho demais, um “balandrau”. Passar da conta à mesa, “encher o bandulho”.

Alguém que desse a impressão de estar fora do mundo era “hidantal”, nome de medicamento para males neurológicos. Quem estivesse mais pra lá do que pra cá estaria “meio pra logo”. Sem fazer nada? “Na gagosa”. Frangote voejando em torno de menina era “gasguito”. Queixando-se de cansaço sem ter feito nada? “Cansado da fadiga do repouso”. O verbo para quem gastasse a rodo, no jargão de minha mãe, era “esparrodar”, ou então “estrafegar”, que até existe, mas não com este significado. Veja se não é expressivo: Fulano está esparrodando em Miami. 

Mas eis que me pego estrafegando, esparrodando a paciência de quem me acompanhou nesta conversa. Até a semana, se houver.

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