Garrone e a sua fábula sobre o espetáculo do poder

Diretor explica como a abertura de Reality é decisiva na criação de um clima que deve induzir o público a pensar

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2013 | 02h11

Filho de um importante crítico de teatro, Nico Garrone, Matteo diz que se acostumou a acompanhar a cena italiana - tanto a alternativa quanto o teatrão. Ele já conhecia o grupo que Aniello Arena integra num cárcere de Volterra. Conseguiu que ele fosse liberado para fazer o filme, regressando toda noite à prisão. Não deixa de ser a repetição daquilo que os Irmãos Taviani mostraram em seu admirável César Deve Morrer. Matteo Garrone segue falando de seu novo longa, que estreia hoje.

Como você conseguiu que Aniello Arena fizesse o papel de Luciano?

Achei que ele tinha a dimensão do personagem e que o entenderia melhor que ninguém. Não pensei num golpe de publicidade, não faz o meu feitio. Talvez, se tivesse tentado colocá-lo em Gomorra, os magistrados não deixassem, porque era, afinal, um filme sobre atividades criminosas e ele é um condenado que cumpre pena. Mas o caso de Reality era especial e a Justiça concedeu a liberação. Foi muito interessante ver como ele se integrou com toda a equipe no set. Em dois dias, todo mundo já se havia esquecido de quem ele era e só importava o brilhante trabalho do ator.

Você começa o filme de forma espetacular, com a câmera que segue uma carruagem pelas ruas de Nápoles. É uma imagem barroca, inusitada. Cria um estranhamento. Era o que queria?

Gomorra, que adaptei do livro de Roberto Saviano, era um filme realista. Mas não queria repetir a forma em Reality, até porque, para mim, esse filme é uma fábula moderna. A fábula, por definição, não é realista. Usa a ficção alegórica para propor uma verdade ou reflexão de ordem moral, com intervenções de pessoas e animais. Achei que seria uma forma de colocar o público no tom começar o filme com uma carruagem, e uma princesa que está se casando. A câmera aproxima-se cada vez mais até entrar no plano dessa outra realidade. E quando Luciano, o protagonista, começa a delirar e perde a noção do que seja essa realidade, crio outra cena que, para mim, é o complemento da abertura - o ângulo do inseto, para mostrar o delírio do herói, que é um anti-herói. Nada nesse filme é produto do acaso. Reality pode ter uma dose de improvisação, mas foi muito pensado, desde o roteiro até a realização.

Seus filmes são muito críticos da realidade italiana. Sua estética é política?

Depende do que você entende por política. Não estou expressando nenhuma militância partidária. E nem me coloco numa posição de superioridade em relação a Luciano. Ele possui seus sonhos, como eu possuo os meus. Lutamos, em diferentes níveis, contra um sistema que é hoje, basicamente, consumista e vende sonhos possíveis de se comprar. A felicidade, hoje, para a maioria das pessoas, é representada por bens de consumo. Acho muito interessante como, em pleno delírio, tentando convencer a direção da TV que é um bom homem, Luciano se desprende, franciscanamente, de seus bens. Aniello é perfeito nessas cenas. Molto bravo.

A maneira mais fácil de se ver Reality é como um ataque à TV, que virou o símbolo do poder de Silvio Berlusconi na Itália. Era o que você queria?

Você pergunta e responde. Pode-se ver o filme dessa maneira, mas ela é reducionista, empobrecedora. Reality não é sobre a TV nem Berlusconi nem sobre o Gran Fratello. É sobre a família e sua desintegração. E é sobre algo muito atual e complexo. Existem estudos que discutem como, na sociedade da imagem, o próprio Estado erige uma espécie de espetáculo do poder. Reality é sobre a sociedade do espetáculo. E o que o meu filme tenta mostrar é um pouco de compaixão por nossa pobre humanidade, na qual me incluo.

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