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Garotos dourados

Neil Tennant, do Pet Shop Boys, fala sobre a maré criativa da dupla e sobre o show que chega hoje a SP

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2013 | 02h08

Há duas décadas em uma posição inquestionável no hall da fama do dance pop, os ingleses do Pet Shop Boys navegam por uma renascença criativa, com uma nova turnê e o lançamento de dois discos em menos de um ano. Em 2012, fizeram o show de encerramento da Olimpíada, circulando em grande estilo pelo estádio olímpico, em um riquixá de origami, ao som de West End Girls. Em seguida, romperam os laços com a gravadora Parlophone, que os lançava desde os anos 80, e criaram o Kobalt Services, selo próprio, pelo qual lançaram Elysium, o primeiro disco em três anos. O álbum foi criticado por ser morno, mas elogiado por recriar o pop taciturno que Neil Tennant e Chris Lowe produziam no auge da dupla, no início da década de 90, época em que fizeram a obra-prima Behaviour. Em seguida, anunciaram mais um disco, Electric, que chega às lojas em julho com a promessa de ser um álbum mais dançante.

O ímpeto criativo, como é de costume, saiu de uma situação dolorosa. "Muita coisa aconteceu nestes últimos anos", conta Neil, a voz da dupla, em entrevista por e-mail ao Estado. "Meu pais morreram recentemente. Acho que o impacto disso é nítido nas letras e na realização dos discos", completa.

A dupla se apresenta hoje à noite, no Credicard Hall, em mais um espetáculo visualmente cativante. O dinheiro que o duo economiza com os músicos (sobre o palco, há apenas Tennant, com o microfone, e Lowe, ao teclado), é investido na produção. Os visuais foram criados por Ed Devlin, responsável pelo encerramento da Olimpíada, além de shows de Kanye West e Jay-Z em 2010, e trabalhos para a Royal Opera House de Londres. As coreografias ficam por conta de Lynne Page, também veterana dos palcos ingleses. O resultado tem figurinos dignos de uma coleção de moda conceitual, projeções a laser e dançarinos saltitantes que não estariam fora de lugar em uma apresentação do Cirque du Soleil. No ápice do show, Tennant e Lowe aparecem entre os cobertores de uma cama na vertical, imobilizados.

Os fãs brasileiros da dupla veem hoje o show que viria ao País para encabeçar o elogiado festival Sónar, que foi cancelado por falta de patrocínio (outros shows do festival, como um DJ set de Nicolas Jaar, e a apresentação da banda Explosions in the Sky, serão realizados esta semana). Na setlist, uma prévia das faixas do novo álbum, que ao vivo, na apresentação que o repórter acompanhou na segunda-feira passada, em Santiago, Chile, pareceram de fato mais dançantes que Elysium, embora o conceito de pista dos Pet Shop Boys seja vintage e ressuscite uma linhagem de europop há tempos fora de moda.

O conceito do show e do álbum é, nas palavras de Neil, "electric", como o nome do disco. Isto não quer dizer nada, pois 'elétricos', os Pet Shop Boys já são há três décadas. Mas as outras respostas do cantor indicam que "electric" remete à visão pop dos cinquentões ingleses, que chegaram à fama em 1984, falando sobre garotas e garotos no bairro londrino de West End, em uma faixa de pulsação branda, que se tornaria um perfeito veículo para a ressonante voz de Neil, e a marca registrada dos Pet Shop Boys.

"Não é difícil fazer um tipo mais calmo de pop eletrônico. No entanto, é difícil ter um disco ouvido em meio a todo o barulho da dance music atual. Por isso, Electric não é silencioso. Para mim, é esmagador", diz, sobre faixas como Axis, uma batida progressiva, de DNA kratwerkiano, que abre o show de Electric. Axis é complementada por Memory of the Future, também de DNA robótico, lançada em Elysium. Entre as duas, Opportunities, de 1985, indica que pouco mudou desde então, em relação às batidas.

Entretanto, mesmo que não participe mais da vanguarda, o Pet Shop Boys já foi darling da crítica antenada, e tem moral para apontar o dedo para a situação atual. Em Elysium, do ano passado, essas críticas ganharam vida na letra de Ego Music: "É tudo sobre mim, mim, mim, mim", canta Neil. "Às vezes, à custa de imaginação e qualidade, a música de hoje é muito egoísta. Canções não precisam ser sempre sobre 'Eu', elas podem ser sobre 'nós", completa.

Para Neil, a música pop atual está a caminho da extinção, assim como aconteceu com a disco music, no início dos anos 1980. "O rock provavelmente voltará com força daqui a uns anos", anuncia. Como inspiração, Neil e Chris escutam o lado menos xucro da música eletrônica. Gostam do DJ brasileiro Gui Boratto e do japonês Ryuichi Sakamoto, além de ouvirem música ambiente nas coletâneas da gravadora Kompakt.

Como tudo no universo dos Pet Shop Boys, o gosto musical é impecável. Resta saber se a turnê de Electric indica uma confiável terceira idade musical, ou o último grande esforço antes da aposentadoria.

"Passamos por um momento intenso de criação nesses últimos dois anos. Não estávamos em turnê, e tivemos tempo para compor, que é a coisa que mais gostamos de fazer", acrescenta Neil Tennant.

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