Filipe Araujo/AE
Filipe Araujo/AE

Garotões aos 60

Aerosmith não se incomoda com a chuva e faz show vigoroso e cheio de clássicos

PEDRO ANTUNES, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2011 | 03h07

Em pouco mais de um ano, muito mudou para o Aerosmith. A banda em frangalhos que passou pelo Palestra Itália, em maio do ano passado, deu lugar a um quinteto de sessentões com o vigor dos velhos tempos. O grupo era espécie de quebra-cabeças confuso, com cada integrante seguindo para um lado. Steven Tyler e Joe Perry, voz e guitarra da banda, ocupavam lados opostos. O vocalista mergulhava nos vícios de drogas e álcool, enquanto Perry já dizia que iria abrir uma audição e que o Aerosmith seguiria sem Tyler. Enquanto isso, o baixista Tom Hamilton, aquele creditado como o apaziguador das picuinhas entre Tyler e Perry, uma espécie de Mick Jagger e Keith Richards, lutava contra um câncer na garganta.

Com esse plano de fundo, aquele o show foi protocolar. Após a reabilitação de Tyler - ele jura ter escapado do abismo dos abusos, e de sua divertidíssima participação como jurado do programa American Idol -, e da recuperação de Hamilton, o grupo voltou com tudo. A turnê que passou por São Paulo na chuvosa noite de anteontem ganhou o nome de Back On The Road, ou de volta à estrada. Para deixar o passado conflituoso para trás, a ideia é presentear os fãs com apresentações relembrando os primeiros 20 anos de carreira. Como se Tyler, Perry, Hamilton, Brad Whitford (guitarra base) e Joey Kramer (bateria) fossem garotões de novo. Não é para tanto, eles viveram todos os extremos do lema "sexo, drogas e rock'n'roll" e sobreviveram juntos para contar os 41 anos de história.

O Aerosmith é uma banda de arena - e, veja bem, o grupo não possui outra opção, já que o último disco de inéditas a banda é Just Push Play, de 2001. E a apresentaçãoem São Paulo serviu para reafirmar isso. Às 20h15, uma sirene ecoou pela Arena Anhembi, um (brega) anúncio de que o show iria iniciar com um atraso quase irrelevante. "São Paulo!", gritou Tyler, do backstage, outra manobra também manjada, mas que foi efusivamente aplaudida pelos cerca de 35 mil presentes.

Tyler e Perry surgem juntos do fundo do palco, enquanto os outros integrantes aparem pelos lados. Tyler veste um sobretudo dourado - largado já na terceira música do show -, chapéu e óculos escuros, para disfarçar o olho roxo ganho após uma queda no banheiro do hotel, no Paraguai. Perry, também espalhafatoso, usa um blazer roxo.

A banda atacou logo com um trio setentista: Draw the Line (disco homônimo, de 1977), Same Old Song and Dance (Get Your Wings, 1974) e Mama Kin (Aerosmith, 1973). O público presente, cuja maioria sequer havia nascido nessa época, mais vibrava pela presença da banda no palco do que pelo conhecimento das canções executadas.

São músicas da verve mais blueseira do grupo, que expõe todas as influências de Joe Perry, um dos últimos guitar hero. Influenciado por mestres como Muddy Waters e B. B. King, ele desfilou solos precisos, com um timbre só seu. Exibiu sua franja com uma estilosa mecha branca esvoaçada pelo vento.

Perry e Tyler parecem dividir as atenções e o setlist da apresentação. Enquanto a guitarra é exaltada no híbrido do gênero do Delta do Mississipi com hard rock dos anos 70, as baladas são a chance de Tyler mostrar que sua voz, apesar dos 63 anos, é poderosa e ainda consegue alcançar os altos tons dos velhos tempos. Com o apoio de backing vocals com precisão cirúrgica, Tyler se mostra como uma espécie de vocalista que não se vê mais por aí. Ele mantém a forma e remexe o corpo magricelo sensualmente. A parte feminina do público - das adolescente às mais velhas - delirava a cada rebolado do seu quadril esquelético.

Quase todos os hits açucarados foram lembrados (Amazing, What It Takes, I Don't Want To Miss a Thing e Cryin'), somente Crazy e Jaded, que embalaram muitas crises de choros adolescentes, ficaram fora. Um ou outro fã mais jovem reclamou, mas a grande maioria parecia delirar com a apresentação vigorosa.

Nem mesmo a chuva, uma garoa fina irritante, que caiu insistentemente durante todo o show, atrapalhou a performance. Usaram e abusaram a plataforma de 10 metros que avançava no meio do público. O Aerosmith ainda executou cinco músicas no bis, num show de quase duas horas, finalizado com a revigorante Train Kept A-Rollin', cover de Tiny Bradshaw, gravada em 1974. A única diferença é que a banda não tem mais vinte e poucos anos, mas eles gostam de se imaginar nessa viagem à Terra do Nunca. Como os garotos perdidos. Só que aos 60.

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