GAROTA. Há 50 anos pelo mundo

Clássico de Tom e Vinicius já não é mais tão gravado em português

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h13

"Vinha cansado de tudo/de tantos caminhos/tão sem poesia/tão sem passarinhos/com medo da vida/com medo de amar", escreveu Vinicius de Moraes para a melodia de Tom Jobim, sobre uma certa moça de corpo dourado de Ipanema. "Quando na tarde vazia/tão linda no espaço/eu vi a menina/que vinha num passo/cheio de balanço/caminho do mar", seguiu, para depois jogar o papel fora e recomeçar, trocando o título Menina Que Passa por Garota de Ipanema.

O mundo inteiro se encheu de graça há 50 anos, quando a dupla apresentou a garota num pequeno show em Copacabana, com João Gilberto e Os Cariocas. Em 63, Pery Ribeiro a lançou em LP. Em 67, Frank Sinatra a gravou com Tom. A partir daí, The Girl From Ipanema bateria a da língua de Vinicius: são 1.517 gravações em inglês contra 430, segundo a Universal, editora da faixa.

O manuscrito dos versos originais, soturnos demais para a leveza da música, foram guardados por Tom para a posteridade. Poucos os conhecem. Já a versão solar que traduz o encantamento dos dois pela bela jovem Heloisa Eneida Paes Pinto, que passava por eles indo à praia, daria a Tom, Vinicius e seus herdeiros (cinco cada) o maior rendimento de direitos autorais de todo o seu cancioneiro.

Dez anos atrás, estimava-se que o valor anual fosse de R$ 500 mil, dividido pelos dois. Nem o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), nem a Universal, tampouco as duas famílias divulgam a cifra atual. Segundo Maria Gurjão de Moraes, caçula de Vinicius, é bem mais baixa. "Garota de Ipanema está entre as músicas mais rentáveis, por sua popularidade. Mas os valores caíram mais de 70% na última década. Direito autoral não representa mais uma fonte grandiosa de receita para quase nenhum compositor."

A Universal conta mais de 800 produtos contendo a música, do disco de vinil ao DVD, de Stan Getz a Alexandre Pires. O brasileiro aprendeu que ela é uma das mais conhecidas do mundo. Só que no Brasil sua execução não é tão relevante, pelo menos quando se olham os dados do Ecad: está em 40.º no ranking dos últimos cinco anos, o qual vem liderando os sertanejos Victor Chaves e Sorocaba.

Entre os artistas estrangeiros, já esteve mais em alta. Ana Lontra Jobim, viúva de Tom, conta que os pedidos de gravação e versão têm chegado mais para Corcovado, Samba de Uma Nota Só e Águas de Março.

Na hora de aprovar ou não, ela analisa as propostas sem levar em conta o gosto pessoal, e age em harmonia com as filhas de Vinicius. "Eu penso: o Tom aprovaria ou não? Uma música como essa não se desgasta. A obra tem que seguir."

Ana conta que os repasses são muito variáveis. Em 97, quando a Brahma fez uma propaganda de cerveja ao som de uma versão funkeada do clássico, com o então atacante em ascensão Ronaldo correndo "num doce balanço a caminho do gol", os herdeiros receberam R$ 300 mil.

Caso a família Jobim ganhe o processo contra a Universal Musical Publishing que move nos Estados Unidos pela recuperação dos direitos dessa e de outras cinco músicas, em parte perdidos para o versionista Norman Gimbel, os dividendos devem subir. A mediação sairá em breve. "Foi uma coisa arbitrária, por debaixo dos panos. Não é o dinheiro, é a questão moral."

Para quem ainda não viu: o documentário A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, neta de Tom, traz uma sequência deliciosa onze gravações, sendo a mais pitoresca La Ragazza di Ipanema, sucesso da cantora italiana Mina de 68.

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