Garota de Roma, de Nova York e do Rio

Cantora Chiara Civello mostra 7752, CD em italiano, inglês e português

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2010 | 00h00

É possível que você já tenha ouvido algumas dessas músicas antes, em português. No CD 7752, elas estão em italiano. Trata-se do terceiro disco da romana Chiara Civello, parceira de Ana Carolina em 8 Storie, Dimmi Perche e Resta, canções que entraram também em Nove, o último trabalho da cantora mineira. Chiara gravou ainda I Didn"t Want, que Ana incluiu no CD/DVD 9 + 1, em versão em português, além de parcerias com dois outros amigos feitos aqui, Antonio Villeroy e Dudu Falcão. A morena bonita de 35 anos, residente em Nova York e apaixonada pelo Rio, fala os três idiomas, e em seu disco há faixas cantadas em todos eles.

Antes de conhecer Ana, Chiara praticamente só compunha sozinha, letra e música, em geral ao piano. Com ela, deu-se conta de que o processo criativo pode ser "engraçado, divertido, simples". A cantora, que acabou por se tornar uma de suas grandes amigas no Brasil, também trouxe Chiara, que vinha de um trabalho mais voltado a o jazz, para um lado mais pop. É o que se ouve em 7752. O lançamento é pelo selo de Ana, Armazém, com distribuição pela Sony.

"É uma coisa que a Chiara já tinha dentro dela, mas não havia aflorado", crê Ana, que toca violão no CD e canta com ela Resta, a composição mais bonita das duas. "Em italiano, "resta" é "fica", ou seja, as mesmas palavras se modificam numa língua e na outra, o que torna tudo ainda mais enriquecedor."

Ana a descobriu em saraus de compositores, por intermédio de Daniel Jobim, pianista neto de Tom, e o primeiro da trupe de amigos brasileiros da italiana. Foi Daniel quem a colocou na roda e a apresentou para a galera (Dudu, Villeroy, Dulce Quental, Jorge Vercillo). Em agosto, Chiara abrirá o show de Ana no Citibank Hall, no Rio.

Na semana passada, ela emprestou sua casa, no alto do Jardim Botânico, com atordoante vista para a Lagoa, para uma conversa cheia de abraços, beijinhos e carinhos, entre Chiara e Daniel, acompanhada pelo Estado. Apresentado a ela em plena Little Italy, em Nova York, por Russ Titelman, produtor norte-americano que já trabalhou com Eric Clapton, Paul Simon e James Taylor e que a apadrinhou, Daniel tocou piano no primeiro CD dela, Last Quarter Moon (2005), produzido por Titelman e lançado pelo selo de jazz Verve.

Em 7752, Daniel foi uma espécie de consultor. "Eu gravava em Nova York e mandava pro Dani por e-mail. Ele respondia com comentários muito delicados", lembra Chiara. "Eu palpitei várias vezes", confirma o músico, para quem a amiga já superou a condição de turista ocasional e "está cada vez mais carioca". "Quando ela ficou triste com a derrota da Itália na Copa, eu disse: Agora você vai torcer pelo Brasil!" (A entrevista foi dada antes da derrota para a Holanda.)

Mudanças. Chiara começou a tocar piano aos 5 anos, a cantar aos 16, e, aos 18, trocou a casa dos pais pelos Estados Unidos, ao ganhar uma bolsa para estudar música na prestigiada Berklee College of Music, em Boston. Em 2000, resolveu que sua carreira aconteceria em Nova York.

Aconteceu. Gravou dois CDs num espaço de dois anos. Excursionou pelos EUA, pela Europa e pelo Japão. Recebeu elogios da crítica e ouviu de Tony Bennett que era "a melhor cantora de jazz de sua geração". Aproximou-se de Burt Bacharach, e com ele compôs, graças à intermediação de Russ Titelman.

Em fevereiro de 2008, no frio do cruel inverno nova-iorquino, deprimida com o fim de um namoro, uma conversa por telefone com Daniel trouxe Chiara para o verão do Rio. A passagem aérea foi comprada num impulso que acabou mudando a sua vida e dando um novas possibilidades à sua carreira.

Ela percorreu 7.752 quilômetros de lá para cá, e daí saiu o nome do CD. Chiara desembarcou no Rio e caiu direto num ensaio do Jobim Trio (formado por Daniel, o violonista Paulo Jobim, seu pai, e o baterista Paulo Braga). Um deslumbramento para uma artista que começou a ouvir português nas músicas de Tom Jobim e que logo se tornaria fã de Milton Nascimento, Caetano Veloso e Chico Buarque. "Acho que tenho predisposição para me sentir bem no Brasil, está no meu DNA. Nunca, no mundo, achei um lugar tão aconchegante", acrescenta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.