Garibaldo, Vila Sésamo e a América

Célebre personagem vira símbolo involuntário na campanha eleitoral

DAVID BAUER / ASSOCIATED PRESS, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2012 | 03h09

A TV americana adorou. Jimmy Fallon, d tradicional Saturday Night Live, da NBC, ou apresentadores como Piers Morgan, da CNN - na última quinta-feira, todos queriam uma participação em seus programas do pássaro Garibaldo, da Vila Sésamo, depois que ele entrou, de repente, na campanha de Mitt Romney.

A produtora do programa (exibido no Brasil de 1972 a 1977, mas ainda no ar nos EUA), Sesame Workshop, frustrou todos os convites com uma negativa. Garibaldo ainda escreveu, no Twitter, no dia seguinte ao debate entre os presidenciáveis americanos: "Costumo ir para a cama às 19h45, mas ontem estava muito cansado e dormi às 19 h! Perdi alguma coisa?"

Perdeu sim, Garibaldo. Na noite de quarta, mesmo dizendo que adora o seu personagem, Romney disse, em seu embate com Barack Obama, que vai cortar os recursos da PBS (emissora pública dos EUA, que exibe o seriado). "Vou acabar com o subsídio à PBS", disse o republicano em uma discussão sobre corte de gastos públicos. "Eu gosto da PBS. Eu adoro o Garibaldo. Eu, na verdade, também adoro você, Jim (Lehrer, apresentador da PBS e mediador do debate). Mas não vou continuar gastando com projetos que me façam pedir dinheiro emprestado à China pra pagar a conta."

No dia seguinte, Obama comentou os planos de seu adversário para Garibaldo. "Deixe-me ver se entendi: ele vai se livrar das regulações em Wall Street, mas vai cortar o salário do Garibaldo", comentou. "Graças a Deus, finalmente alguém vai acabar com o Garibaldo! Quem imaginava que era ele o culpado pelo déficit!? O Elmo (monstrinho vermelho do programa, famoso entre as crianças) que se cuide!"

A diretora da emissora, Paula Kerger, disse que "caiu do sofá" enquanto assistia ao debate. Segundo ela, se os subsídios acabarem, será o fim também de algumas retransmissoras da PBS.

Em 2012,o governo destinou US$ 450 milhões para a CPB (Corporation for Public Broadcasting, mantenedora dos serviços de TV e rádio públicos nos EUA), ou 15% do orçamento, segundo Paula. A verba ajuda a manter as 179 retransmissoras, por todo o país, e, para algumas das menores, localizadas em áreas rurais, pode significar até metade do orçamento anual. Elas não conseguiriam funcionar sem esse dinheiro.

A diretora espera que Romney entenda a importância da programação educativa que a PBS oferece. De cada cinco crianças com menos de 5 anos, quatro assistem à TV pública, onde Vila Sésamo é um sucesso consolidado, garante Paula.

"Para mim, a TV pública é como comida de mãe. Talvez porque eu esteja muito próxima a ela, talvez porque conheço muita gente que foi formada pela TV pública", complementa.

Mas os congressistas republicanos têm adotado as redes públicas como alvo, afirmando que tanto a PBS quanto a Rádio Pública Nacional difundem valores liberais. "É desmoralizante colocar o nosso trabalho no meio desse debate", diz Paula.

O tema foi lembrado também nas redes sociais ao longo da semana passada. Houve um pico de 17 mil tuitadas por segundo sobre Garibaldo, e a hashtag #SaveBigBird (salvem Big Bird - nome de Garibaldo nos EUA) chegou rápido ao topo dos trend topics. O colunista do New York Times Nicholas Kristof tuitou: "Descobri como Romney vai ajustar as contas: vender os direitos de transmissão da degola do Garibaldo".

A Sesame Workshop, por sua vez, disse que, mesmo não fazendo parte da PBS, depende da emissora para divulgar o seu trabalho. "A Sesame Workshop é uma organização educacional apartidária e sem fins lucrativos", declarou Sherrie Westin, porta-voz da produtora. "Nós não comentamos campanhas político-partidárias, mas estamos felizes com o fato de Garibaldo ainda ser uma unanimidade." / TRADUÇÃO DE JÚLIO ETTORE

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