Gárgulas, o corpo moldado pela desolação

JJ REGULAR

Entrevista com

Crítica: Helena Katz, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

Há uma extensa produção ligando as figuras monstruosas que ornam a arquitetura gótica ao Gárgulas, espetáculo que a Cia. Borelli de Dança apresenta até amanhã no Kasulo Espaço de Cultura e Arte, no bairro de Santa Cecília. Alguns exemplos: o seriado da Disney criado por Greg Weisman (1994-1997); a revista da Marvel Comics (1995) publicada apenas 11 vezes, mas depois continuada pelo mesmo Weisman para a Slave Labor Graphics; um jogo de RPG (Rifts); e a série dos livros Discworld, de Terry Pratchett.

As gárgulas não se restringem somente ao nosso passado medieval, pois elas estão por aí, circulando entre nós. A coleção de gárgulas da Catedral de Washington inclui figuras contemporâneas como Darth Vader e robôs, dentre outras, atualizando as imagens tradicionalmente associadas a esse tipo de ser fantástico. E no mundo das trevas, as gárgulas existem também na forma de uma linhagem humanoide com chifres, rabo, garras, bicos, etc.

Em dança, o ambiente das gárgulas remete a Sandro Borelli, cujo interesse artístico sempre focou o que se encontra à margem, o que a sociedade se esforça por tornar invisível - seja a loucura ou a morte. Que ele chame de Gárgulas a um espetáculo seu, portanto, faz todo o sentido. Essa obra foi originalmente produzida para o 8.º Cultura Inglesa Festival, em 2004 e, como é público, os que participam desse festival são obrigados a associar o seu trabalho ao de algum artista inglês. Sandro Borelli escolheu a pintura de Lucien Freud.

O corpo, na pintura de Lucien Freud, hoje com 87 anos e neto do Freud da psicanálise, apresenta-se como a forma inevitável que a desolação pode tomar. Os traços que desenham esse corpo escavam nele as trevas mais espessas, trazendo-as para a superfície. Esse é o ambiente do Gárgulas que reestreia, título ao qual foi adicionado um aposto: "Exorcistas se deparando com seus próprios fantasmas." A questão é que Sandro Borelli parece haver tropeçado no entendimento a respeito do papel do realismo em Lucien Freud - o que comprometeu a dramaturgia que criou. Associou realismo com literalidade, o que o levou a montar uma sequência de cenas que funcionam como se fossem legendas encarregadas de deixar excessivamente explícitos os seus temas ou conteúdos.

A densidade fica restrita à alta dosagem do escuro, aos gestos pausados e ao clima produzido pela trilha sonora - que não conseguem nos levar para dentro da escuridão humana. Se o propósito era o de explorar "a figura humana tendo a morte como companheira vital e necessária para a sua libertação", como diz o texto do programa, as imagens estetizaram por demais a crueza desse corpo despojado, angustiado e solitário a ponto de impedir que a sua força se fizesse tão cortante como a pintura que as inspirou. É como se a obra ficasse periférica ao que deseja tratar.

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