García Márquez em sua justa medida

Não é fácil adaptar o realismo fantástico de Gabriel García Márquez ao cinema. Tende-se a cair no exagero ou, no extremo oposto, na neutralização do discurso fantasioso de Gabo, em nome do realismo. A estreante Hilda Hidalgo, da Costa Rico, surpreende ao encontrar a justa medida na versão para tela do romance Do Amor e Outros Demônios. Faz uma adaptação sóbria, mas bastante próxima ao espírito da obra do escritor colombiano.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

Verdade que este romance talvez não proponha tantas dificuldades como outros do escritor - em especial a sua obra-prima, Cem Anos de Solidão, que não ainda não encontrou cineasta que o enfrente (dizem que Gabo o reservou, como herança, ao filho Rodrigo García).

A história de Do Amor e Outros Demônios é a de uma garota mordida por um cão, que é internada num convento sob suspeita de estar possuída pelo demônio. Não foi inventada pelo escritor. Faz parte da mitologia colombiana. Gabo a descobriu quando, ainda repórter, foi cobrir a demolição do antigo Convento de Santa Clara. Lá ouviu falar na lenda da menina de longos cabelos vermelhos que se apaixona pelo padre incumbido de submetê-la ao exorcismo. Como ficcionista, Gabo tomou o que lhe contaram como base para a história que constrói com sua imaginação. O resultado é uma meditação sobre o poder subversivo do desejo, e a opressão que, com todas as suas máscaras (ou como nenhuma delas), tenta mantê-lo reprimido.

Hilda Hidalgo trabalha com sobriedade sobre esse tema que é uma variante caribenha de O Padre e a Moça, o filme de Joaquim Pedro de Andrade construído a partir de um poema de Carlos Drummond de Andrade. Só que as cores são ainda mais soturnas porque, se o caso filmado por Joaquim se ambientava no conservadorismo do interior de Minas, o de Gabo, filmado por Hilda, traz a marca da inquisição. Da treva da intolerância levada à brutalidade física. A abordagem dos dois é similar - intimista, baseada em closes dos rostos dos personagens, como se quisessem "ouvir" suas almas. Andamento lento, em diálogo talvez com Tarkovsky. Ou consonante com a própria solenidade daquilo que trata. Um belo filme.

DO AMOR E OUTROS DEMÔNIOS

Cinemateca - Sala BNDES - Hoje, 16h30

Belas Artes 2 - Sábado, 20h10

Especial. Veja a programação completa da 34ª Mostra em

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