Gângsteres e caubóis retratam o transe

Programação do Olido e do CCSP exibe a diversidade dos gêneros

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2010 | 00h00

Cinéfilo de carteirinha, Célio Francischetti faz a curadoria dos ciclos de cinema promovidos pela Secretaria Municipal de Cultura em espaços como o Centro Cultural São Paulo, a Galeria Olido etc. Começa hoje nestes dois locais, o Olido e o CCSP, uma mostra intitulada Gângsteres e Caubóis. Francischetti sabe que os filmes de gângsteres e os westerns são gêneros próximos. Que o digam diretores do porte do veterano Raoul Walsh, que transpôs para o Velho Oeste a trama de Seu Último Refúgio, de 1941, e fez Golpe de Misericórdia em 1949. A mesma história teve uma terceira versão, de volta aos gângsteres, em Morrendo a Cada Instante, de Stuart Heisler, em 1955.

Só os filmes de hoje e amanhã no Olido já justificam o ciclo de Francischetti. Dois clássicos de gângsteres - Bonnie & Clyde/Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, e Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese, com aquele alucinante plano sequência inicial, um prodigioso virtuosismo do cineasta e de seu fotógrafo, Michael Balhaus, mais um western, A Grande Jornada, de Walsh. Amanhã, dois westerns - Rio Vermelho, de Howard Hawks, e No Tempo das Diligências, o cultuado Stagecoach, de John Ford, e o Scarface violento de Brian De Palma.

Historiadores de cinema gostam de dizer que o ciclo de gângsteres está associado, em Hollywood, a períodos de crise da história norte-americana. Alma no Lodo, de Mervyn LeRoy, é de 1931, em plena depressão produzida pelo crack da Bolsa de Nova York; Bonnie & Clyde cobre o mesmo período, mas a crise, em 1967, quando o filme foi feito, era consequência da escalada de violência na Guerra do Vietnã. O western também não deixa de refletir o momento histórico. Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, com roteiro de Carl Foreman, 1952, trata sutilmente do macarthismo, que corrompia a vida política dos EUA, e Meu Ódio Será Sua Herança, de Sam Peckinpah, radicaliza a desmistificação do heroísmo que Ford estabelecera com O Homem Que Matou o Facínora, de 1962. Não por acaso, o ano era 1969, quando os protestos contra a guerra no Sudeste Asiático ganhar as ruas, nos EUA.

No topo. Walsh criou um momento emblemático do cinema em Fúria Sanguinária, de 1949, quando o edipiano gângster James Cagney anuncia para a mãe que chegou ao topo - e ele realmente parece repetir o rei Kong de Ernest Shoedsack e Merian Cooper no alto do prédio, do qual será derrubado com rajadas de metralhadora. Por falar em emblema, o que dizer de De Palma, que em Os Intocáveis, de 1987, ousou recriar, como ação a célebre cena conceitual da escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein? E o Michael Mann que, em Inimigos Públicos, do ano passado, recria dilemas clássicos do cinema político italiano - Elio Petri, em especial - no começo dos anos 1970?

Francischetti não deixa de ser corajoso ao nivelar clássicos do cinema dos EUA com spaghetti westerns. E ele não resgata apenas Sergio Leone, Era Uma Vez no Oeste, de 1968, uma unanimidade em seu reconhecimento como "autor". Você também poderá rever dois spaghettis de Sergio Corbucci, Django, de 1966, em que Franco Nero arrasta pelo barro aquele caixão de defunto, e Os Violentos Vão para o Inferno, de 68, de novo com Nero, agora dividindo a cena com Jack Palance, que criou um dos grandes vilões do western em Os Brutos Também Amam, Shane, de George Stevens, nos anos 1950.

Paul Newman e Robert Redford criam pistoleiros do entardecer, como os de Peckinpah, em Butch Cassidy, de George Roy Hill, de 1969. A violência das tríades anima os gângsteres asiáticos de Eleição 1 e 2, de Johnnie To. As economias emergentes reaparecem em Senhores do Crime, de David Cronenberg, sobre a Máfia russa. E os caubóis saem do armário em O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Na verdade, Gângsteres e Caubóis, na sua diversidade de temas e estilos, retrata um mundo em transe.

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