Guto Muniz/Divulgação
Guto Muniz/Divulgação

Galpão usa Chekhov para fazer balanço

Às vésperas de completar 30 anos, cia. mineira muda de rumo com 'Tio Vânia'

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2011 | 00h00

CURITIBA - O Galpão desceu da perna de pau para se olhar no espelho. Com Tio Vânia - espetáculo que estreia amanhã no Festival de Curitiba - o grupo mineiro parece sinalizar um desvio de rota. Sai do território do teatro popular, quase farsesco, onde trafega com segurança há décadas. E parte em direção ao desconhecido, tateando um universo praticamente inexplorado pela companhia: os dramas de densidade psicológica.

Não é por acaso que o encontro com a obra de Anton Chekhov acontece a essa altura do caminho. Para um grupo às vésperas de completar 30 anos, formado por atores que chegam aos 50, montar Tio Vânia pode adquirir um significado adicional. Talvez não desponte em cena apenas a história de Vânia, o homem amargurado que avalia as escolhas que fez ao longo da vida.

Com o texto russo, o Galpão também põe a si mesmo sob escrutínio. "A peça fala dessa relação dos homens com o tempo, esse momento de rever o que fizeram. Agora, é como se o próprio Galpão fizesse um balanço", avalia Yara de Novaes, diretora que assina a montagem.

Foi com encenadores convidados que a trupe mineira construiu a sua história. Nesse quadro, a própria escolha de Yara para conduzir o novo trabalho já é um indicativo do rumo que o Galpão queria tomar: Um entendimento mais profundo do trabalho do ator, um mergulho mais vertical nas relações com as personagens.

Antes de fincar o pé no mestre do realismo, o grupo sondou outros autores, como o inglês Harold Pinter. Também flertou com a releitura muito particular que o argentino Daniel Veronese faz de Chekhov em Espia a uma Mulher que se Mata. Mas acabou decidindo-se por abraçar o original.

Se pensarmos que o último trabalho do Galpão foi Till - uma retomada de suas raízes de teatro de rua -, a obra atual soa quase como contrassenso. Mas vale lembrar que o movimento de escape já se delineava antes, pelo menos desde que Eduardo Coutinho filmou Moscou. No documentário de 2009, o cineasta revelava o encontro da companhia com As Três Irmãs. Em jogos de improviso, flagrava-se o conflito latente entre real e ficção, dissolviam-se os limites entre o ator e o papel que representava.

Para fazer Tio Vânia, as biografias dos intérpretes também foram convocadas na sala de ensaio. Essas experiências pessoais, porém, não chegaram a subir ao palco. A opção foi pela integridade das personagens chekhovianas. O que não significou, ressalva a diretora, uma adesão incondicional a leitura realista que se faz de Chekhov. "Mais do que realismo, é verdade o que vemos em seu teatro", diz ela.

Em sua cenografia, Marcio Medina não reconstrói uma casa provinciana russa. Concebeu apenas colunas, que se movem delimitando os espaços. "Não se trata de ilustrar. É um cenário mais dramático, que serve para sublinhar sentimentos, como a opressão", ele explica.

Outra tentativa dessa versão foi desmistificar a carga de melancolia que aparece colada ao dramaturgo. "Essas personagens têm suas angústias, mas mesmo que fracassem há sempre um impulso de vida", comenta a diretora.

Se olharmos por esse viés, Tio Vânia não é só o retrato de um homem que fracassou. O que desponta dessa fábula de frustração é também a necessidade de se reinventar. E talvez esteja aí a chave para entender o que o Galpão quer agora: conceber, para si, um futuro.

GRUPO GALPÃO

A caminho dos 30 anos

Criado em 1982,em Belo Horizonte, o grupo Galpão tem sua origem no teatro de rua e sempre se mostrou envolvido na pesquisa das linguagens populares. Estreou com o espetáculo E a Noiva Não Quer Casar, um trabalho de criação coletiva. E alcançou projeção internacional dez anos depois, em 1992, com Romeu e Julieta, adaptação da obra de Shakespeare dirigida por Gabriel Villela.

 

A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA ORGANIZAÇÃO DO FESTIVAL

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