Galpão leva mundo de Pirandello para as ruas

Com Os Gigantes da Montanha, trupe retoma parceria com Gabriel Villela

SORAYA BELUSI, ESPECIAL PARA O ESTADO, BELO HORIZONTE, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2013 | 02h09

Duas décadas atrás, um Shakespeare popular, poético e musical ganhou as ruas do Brasil e do mundo na visão de Gabriel Villela e do Grupo Galpão. Agora, será a vez de o público conhecer um Luigi Pirandello (1867- 1936) reinventado pela linguagem barroca do diretor e do coletivo mineiro, que propõem uma viagem vertiginosa pelo mundo onírico do dramaturgo italiano em Os Gigantes da Montanha, que estreia hoje, em Belo Horizonte, e circula pelo Brasil no segundo semestre.

A montagem marca o reencontro dos artistas em um espetáculo inédito após as bem-sucedidas experiências em Romeu e Julieta (1992) e A Rua da Amargura (1994). "É quase um delírio. Para Pirandello, o grande problema é se sou um, nenhum ou cem mil. E a grande tragédia humana é optar por um. E é disso que ele fala em Gigantes da Montanha, texto surrealista em que inicia a dissolução da linguagem", diz o ator Eduardo Moreira.

Na obra, o ganhador do Nobel de literatura estabelece um desafio filosófico e dramatúrgico, que ficou inacabado por causa de sua morte. Em Os Gigantes, ele cria um lugar em que não há distinção entre sonho e realidade, habitado por seres entre o fantasmagórico e o humano, que recebe a visita de trupe decadente que insiste em encenar a fábula do filho trocado.

"Eu me comovo muito com esse texto quando penso em Pirandello, no fim da vida, com mais de 70 anos, pensando e repensando o caminho do teatro, discutindo o teatro antigo e o nascimento de uma outra possibilidade, em que coloca indagações muito profundas não só para o artista, mas também para o ser humano", completa Moreira que, no espetáculo, dá vida a Cotrone, espécie de mago que vive nessa ilha indefinida.

Para compor o jogo da atuação, os atores mergulharam na linguagem do circo-teatro, uma das marcas de Villela, mas também em referências da commedia dell'arte, do teatro popular italiano e do melodrama.

"Desenvolvemos uma embocadura a partir dessas referências e criamos máscaras vivas muito fortes, não só as que revisitamos da commedia dell'arte, mas a máscara de cada um dos atores, embora não se trate de um espetáculo careteiro", explica Villela. A comunicação tão desejada com a plateia se estabelece em grande parte pela força cômica da atuação e pelo viés musical, em solos de canções populares italianas inspirados no Festival de San Remo. A encenação de Villela convoca referências múltiplas para instaurar esse mundo visual proposto por Pirandello, criando uma vertigem barroca através de cenários e figurinos. "É o ouro mineiro", brinca Villela. "Às vezes me chamam de barroco, como se estivessem dando uma bronca em mim, mas o que fazer com toda essa beleza?", brinca o diretor.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.