Galo de briga

Há 36 anos, João Bosco fazia um clássico LP de hits que, agora, reconduz ao palco

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2012 | 03h08

"Roncou, roncou, roncou de raiva a cuíca, roncou de fome", cantava João Bosco, com raiva e fome, em Ronco da Cuíca, um dos destaques de Galos de Briga. Era 1976, e o sucesso comercial de seu terceiro álbum iludia quem pensasse que não havia ali um fundo de subversão (Ronco da Cuíca sendo a mais direta delas, com seus paralelos entre cuícas e barrigas roncantes). Certamente iludia a censura, com um apanhado de sambas sobre o cotidiano que retratava a intimidade conjugal carioca, mas cuja agonia ecoava a minguante esperança da classe artística em plena ditadura, e trabalhos mais engajados, como Construção e Sinal Fechado, de Chico Buarque. Mais pra frente, isto daria a fruta mais ácida da parceria entre João e Aldir Blanc, em O Bêbado e a Equilibrista do disco seguinte.

Mas, tendo em mente o teor amargo das canções, é curioso que Galos de Briga seja um dos álbuns que mais renderam hits a João. Junto ao mais ensolarado Caça à Raposa, é um daqueles discos que podem ser tocados de cabo a rabo com poucos momentos de desatenção do ouvinte. É exatamente o que faz o mestre, de sexta a domingo desta semana que vem, no Sesc Belenzinho (ingressos esgotados). João Bosco conversou com o Estado sobre a obra, que faz 36 este ano.

Como era a dinâmica criativa entre você e o Aldir na época?

A gente fazia tudo junto, passávamos dias tocando. Me lembro da própria faixa-título, que fomos fazer mais no final. Algumas tinham sido musicadas, outras letradas. Galos de Briga era a canção que unia todo o conceito do disco. A forma com que eu colocava uma coisa, ele pegava e fazia outra, era muito natural. Funciona assim até hoje. Já Miss Suéter tem uma história interessante. Estávamos hospedados em um quarto de hotel com duas camas. Um dia cheguei de fora e vi que ele havia deixado um caderninho com algo escrito. Era a canção, que abre com aquela frase dedicatória.

O disco tem um viés mais tradicional que o anterior, Caça à Raposa, que flerta com rock e jazz em seus sambas e boleros. Foi uma decisão consciente?

Acho que é por causa dos arranjadores. Caça à Raposa foi arranjado pelo Cesar Camargo Mariano, que já buscava uma linguagem parecida nos discos da Elis. Mas no Galos de Briga há algumas experiências incríveis, como sonoplastia em Ronco da Cuíca e Gol Anulado. O primeiro era uma gravação de um desfile lá na Presidente Vargas, o segundo era o som de um estádio. Tem também aquele acorde parado no fim de Ronco da Cuíca. Ninguém fazia aquilo em um samba. Por isso foi um passo à frente de Caça à Raposa.

Falando em Ronco da Cuíca, o seu jeito de tocar violão na música solidificava seu estilo, assim como em Escadas da Penha, do disco anterior.

Era uma consequência da orquestra de bateria. Eu tentava, com o violão, preencher os espaços. Os bordões têm uma ação direta onde os dedos puxam a harmonia que vem intercalada. E tentava traduzir os ritmos para o violão. Foi uma consequência de tudo que eu ouvia, de Baden até Dilermando Reis. O próprio Dino 7 Cordas, que toca no disco, e o Meira, ambos do Época de Ouro, me influenciaram.

Trinta e seis anos depois, qual a importância de Galos de Briga em sua discografia?

Ali estão 12 canções bastante emblemáticas da minha parceria com Aldir Blanc. É também um disco de participações excelentes. Temos Luizinho Eça nos arranjos, Toninho Horta tocando guitarra. Na cozinha temos o grande Luizão no baixo e Marçal na percussão. Até o Radamés participou, fazendo o arranjo de Rancho da Goiabada. E tem o (gaitista belga) Toots Thielemans, que o Rildo Hora encontrou na véspera da gravação de Transversal do Tempo (de Elis Regina) e que acabou dando uma canja na música.

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