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Galinha

-Você, hein? Tremendo galinha.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2014 | 02h06

- Como, galinha?

- Galinha. Vive paquerando mulher. Dando em cima. Como agora. Galinha.

- Acho que galinha não é bem o termo. Sou um homem. Um bípede macho. E não há aves de espécie alguma entre meus antepassados.

- Galinha também é bípede.

- Então me chame de galo, não de galinha.

- Galinho...

- Galo. Galo! Aliás, se você insiste em me classificar como um bicho emplumado, prefiro águia. Pode me chamar de águia. De condor. De gavião. Não de galinha.

- Você, então, não se considera galinha? Nem em sentido figurado?

- Em nenhum sentido. Por que usar a galinha como exemplo de predador sexual? Logo a galinha! Não há bicho mais pacato. Mais assexuado. Mais pudico. Aquele ar de eterno sobressalto da galinha é o seu medo constante de ser atacada pelo galo. A galinha, na verdade, foge do sexo. A galinha tem horror a sexo. Me diga: qual é o principal produto de uma galinha?

- Pintos. Sinal de que houve sexo.

- Não! O principal produto de uma galinha é o ovo sem pinto. O ovo que ela mesmo faz, sem precisar do galo. Cada ovo com um pinto dentro é um sinal que ela não conseguiu escapar do galo. Um sinal do seu pecado involuntário.

- Mas você reconhece que é um predador sexual?

- Não sei. A águia é um predador sexual? Ou está apenas obedecendo à sua natureza, o comando dos seus genes, o seu destino sobre a Terra? Existe uma espécie de chimpanzé - não sei como se chama - que passa o tempo inteiro fazendo sexo. Todo o mundo transando com todo o mundo, sem parar. Por que essa espécie foi a escolhida para ter esse prazer reincidente, essa felicidade constante, enquanto outras espécies, como a nossa, por exemplo, precisam passar por todo um processo de sedução, compromissos, tratativas, às vezes até visitas ao cartório, para no fim ter sexo? Não é justo.

- Você, então, só está seguindo a sua natureza, como um chimpanzé?

- Digamos que eu estou apenas seguindo o protocolo que se espera da minha espécie para chegar ao sexo, só com um pouco mais de pressa.

- Sei...

- E por que toda esta conversa? Eu apenas perguntei que perfume você está usando. Foi o destino que me colocou aqui, ao seu lado, neste avião. Mas o destino do nosso relacionamento, quando o avião pousar, está em aberto. Você é que decidirá...

- Você não perguntou apenas que perfume eu estou usando. Sua pergunta estava cheia de sugestões. Seu olhar estava cheio de implicações. Pensei: ele agora vai pedir para cheirar o meu pescoço...

- E então? Toda esta conversa vai dar em quê?

- Meu marido vai estar me esperando no aeroporto...

- Ai, ai, ai...

- Mas não desanime. Vou lhe dar meu telefone. Eu também sou um pouco...

- O quê?

- Galinha.

- Mmmm. Posso cheirar o seu pescoço?

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