Galeria Olido traz Carta ao Pai, de Sandro Borelli

Quem acompanha a carreira de Sandro Borelli poderá verificar quanto se desenvolveu a melhor das suas qualidades de coreógrafo: a sua capacidade de construir padrões de movimento em dança para os temas sobre os quais se debruça. Carta ao Pai, em cartaz na Galeria Olido, coreografia baseada no livro homônimo de Franz Kafka, publicado em 1919, consolida Borelli como um dos mais expressivos inventores de vocabulário da dança brasileira.Desta vez, não somente essa sua habilidade está muito bem explorada, como também a companhia se apresenta com um tipo de entendimento bastante maduro entre seus membros. O trabalho competente de Ângela Nolfi na preparação corporal pode ser percebido não somente na singularidade de cada desempenho, mas também na fina escuta que calibra a atuação coletiva dos ótimos profissionais deste elenco. Evidencia-se um tipo de sintonia que só nasce com o tempo - o que, é claro, vai bater na questão nevrálgica da dança brasileira, aquela que diz respeito às condições que regem a sua produção e circulação. Quando os grupos permanecem sem condição de remunerar profissionalmente os seus membros; quando não conseguem pagar por um espaço que os abrigue; quando não dispõem de recursos para a produção de suas idéias, ficam expostos a todos os percalços naturais e a uma situação como essa. Infelizmente, essa é a realidade para a maioria, com as conseqüências que a produção contemporânea de dança vem espelhando. Mas quando um grupo conquista alguma estabilidade, com ela se materializa a continuidade da sua investigação - condição indispensável para frutos como esse que Borelli oferece em Carta ao Pai, por exemplo.A leitura de Borelli e elenco da obra de Kafka explodiu qualquer possibilidade de retê-la somente à relação pai-filho. Se Foucault pudesse ser aqui chamado, com ele perceberíamos que é da extensão dos micropoderes que se trata.A obra pertence a um tipo de entendimento de dança que privilegia a simetria e os processos de espelhamento que produzem previsibilidade. Todavia, mesmo dentro dessa moldura, organiza seqüências de movimento à altura da excelência do vocabulário que produziu. Vanessa Macedo e Roberto Alencar, cada qual a seu modo, revelam com clareza o ajuste entre teatralidade e dança que Borelli parece ter buscado durante todo o seu percurso. No corpo dela, é o justo controle da dramaticidade dos gestos que faz emanar a movimentação; e no dele, é a materialidade do desenho cuidado de cada movimento que dá nascimento à dramaticidade. Uma mesma moeda, onde cada face só existe em comunhão com a outra, em uma espécie de jogo muito bem explorado por Borelli.É quase como se nos tornasse cúmplices de seu futuro passo, nos deixando vislumbrar que adensará as mesmas questões que o acompanham há tempos (sempre discutindo os limites e a precariedade das relações humana). Seu percurso coreográfico permite prever que vai desenvolver soluções cênicas que não precisam depender tanto de ajudas fora do corpo. A sua qualidade de fazer o corpo dizer somente com seus gestos já está consolidada. Por isso, daqui em diante, cenário, figurino, música e iluminação devem passar a estabelecer outro tipo de comunicação com a sua dança. Possivelmente, tais recursos deixarão de didatizar o que já não mais precisa de legenda, pois a poderosa e autoral movimentação que Borelli desenvolveu, ao longo de seu percurso, conquistou autonomia. Cia. Borelli de Dança. Galeria Olido(139 lug.). Avenida São João, 473, Centro, 3331-8399. 5.ª a sáb., 20 h; dom., 19 h. Grátis. Até 23/7

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