Galeria expõe obras raras de Mira Schendel

Desde a morte de Mira Schendel, há quase 15 anos, seu espólio é um baú sem fundo que não cessa de despejar obras para coletivas ao redor do mundo e de onde, de tempos em tempos, é recolhido o suficiente para montar pequenas retrospectivas, invariavelmente anunciando material inédito. Contudo, quando se achava que o poço havia chegado ao fim, surpresa: ele se transmuta em uma espécie de cornucópia mágica e passa a jorrar trabalhos raramente vistos. Esse é o caso da exposição que a Galeria André Millan inaugura nesta quinta-feira, com mais de cem criações da artista, chance rara de se ver coisas há muitos anos longe dos olhos do público, caso das mandalas, dos bordados, do I Ching e de alguns pequenos trabalhos que não constam dos livros sobre a artista, mas que o galerista André Millan apelidou de "decalques", pequenas colagens que usam recortes de flores e borboletas - trabalhos inusitados, muito distantes de tudo o que a artista produziu antes ou depois. As obras da mostra foram selecionadas por Millan e por Ada Clara Schendel, filha única da artista. Desde No Vazio do Mundo, histórica retrospectiva que ocupou os amplos salões da Galeria de Arte do Sesi cinco anos atrás, São Paulo não via um número tão grande de criações da artista suíça - que se mudou definitivamente para o Brasil no final da década de 40, aos 30 anos, e aqui produziu compulsivamente até o final da vida (a artista morreu em 1988, aos 69 anos, de câncer no pulmão). Na montagem da Millan, as mandalas, bordados, I Ching e "decalques", por seu colorido e expressividade, funcionam como um contraponto às peças hors-concours das monotipias (sua marca registrada), objetos gráficos, discos, toquinhos e sarrafos. O I Ching, uma das jóias raras desta exposição, é composto por 12 pequenas (47 x 24 cm) têmperas sobre madeira, criadas em 1981, em que a orientação geometrizante da artista cede espaço à expressão pela cor e ao uso de espaços vazios. A série foi produzida especialmente para a 16.ª Bienal de São Paulo. Já Mandalas é uma série de meados dos anos 70, aqui em número de sete peças, pequenos desenhos coloridos em ecoline sobre papel, inspirados no tantrismo budista, em que por meio de um diagrama composto de círculos e quadrados concêntricos a imagem do mundo se faria representar, na visão da artista. A última oportunidade que o público de São Paulo teve de ver as mandalas foi em 1975, no extinto Gabinete de Artes Gráficas. Tanto as mandalas como o I Ching são provas da ligação de Mira com as filosofias orientais, ela que sempre tentou transgredir as barreiras artísticas entre Ocidente e Oriente. Do final dos anos 70, os "decalques" configuram outro momento único que pontua a retrospectiva. Mira utiliza pequenas imagens populares, pitorescas, de flores e borboletas fortemente coloridas, aplicadas sobre padrões geométricos, em colagens que incrivelmente não se aproximam do kitsch, mas sim da precisa delicadeza que ganharia sua forma definitiva nas têmperas e folhas de prata e ouro sobre telas, de meados da década de 80 - essas sim uma ausência sentida na mostra da Galeria Millan. Da série bordados, produzida entre 1962 e 1964, há um único trabalho, que mostra a serialização de formas ovais, quadrangulares e circulares - também bastante distante do preto-e-branco e da economia de gestos eloqüentes que marcou a trajetória de Mira. Tinta e talco - Apenas entre 1964 e 1966, Mira Schendel produziu cerca de 2 mil monotipias, série de desenhos feitos com tinta a óleo em papel-arroz japonês ultrafino. Acrescida de caracteres em letraset, essa técnica seria retomada nos anos 70. A exposição na Millan reuniu cerca de 80 desses trabalhos, encontrados juntos em antigas pastas do arquivo de Mira, e montou uma pequena instalação, pendurando os desenhos em alturas e distâncias variadas. Esse espaço, que recebe grande parte da luz da casa modernista onde está instalada a galeria, é ideal para que o caráter transparente e translúcido da obra da artista se revele por completo. Mira desenhava pelo avesso do papel, e essa "posição" fica clara nessas monotipias. Ela criou uma técnica muito peculiar para seus desenhos, em que propositadamente reduzia seu controle sobre o processo e o resultado da obra. Primeiro entintava uma lâmina de vidro, depois colocava sobre ela uma leve camada de talco, a fim de que a tinta não fosse absorvida por completo. Só então sobrepunha folha de papel-arroz sobre o vidro e, usando a unha ou o dedo, desenhava na superfície branca. Serviço Mira Schendel. De segunda a sexta-feira, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 17 horas. Galeria André Millan. Rua Rio Preto, 63, tel. 3062-5722. Até 8/6. Abertura nesta quinta, às 20h.

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