Galeria carioca abre maior retrospectiva de Iberê Camargo

O pintor Iberê Camargo, um dos mais valorizados no mercado brasileiro, raramente tem mostras inteiramente dedicadas a ele e, muito menos, retrospectivas em que a evolução de sua obra fica patente. Por isso, a mostra que se abre nesta terça-feira na Galeria de Arte Ipanema preenche uma lacuna, ao reunir 40 obras, algumas pouco vistas, por pertencerem a colecionadores particulares. Lá estão os quadros de seu período inicial, ainda em Porto Alegre, quando usava modelos vivos, paisagens, os vórtices e os carretéis dos anos 50 e 60 e os auto-retratos e figuras humanas de sua fase final, nos anos 80. ´O que mais impressiona em Iberê Camargo é que sua obra nunca perde o rigor e a qualidade´, comenta a diretora da galeria, Luciana Sève. ´Outros artistas de seu porte, no fim da vida em períodos de dificuldades, fizeram quadros que hoje são considerados menores. No caso de Iberê, tudo é excelente, não há desníveis.´Quem for à Galeria Arte Ipanema vai constatar essa premissa, porque a mostra foi organizada de forma cronológica pela curador Cristina Burlamaqui. No catálogo, ela lembra que Iberê teve uma trajetória coerente. ´Desde suas primeiras paisagens de formas simplificadas, mas carregadas de significação própria, até suas últimas pinturas perpassa-as o sentimento de perplexidade dos ´solitários melancólicos´, que carregam o gosto amargo da vida desiludida´, escreveu Cristina no catálogo da exposição. ´Sua pintura não se acomoda ao olhar, ela está aí para ser vista.´Para Luciana, a emoção é a marca de Iberê, nas quase cinco décadas em que ele produziu. Este foi um dos motivos de tê-lo escolhido para a grande mostra deste ano. ´Completamos 40 anos no ano passado, mas estamos comemorando desde 2003. Naquele ano, fizemos uma retrospectiva de Alfredo Volpi, o melhor colorista da pintura brasileira. Em 2005, foi Milton DaCosta, que prima pelo traço perfeito. Agora é a vez de Iberê, pela emoção que expressa´, explica Luciana. ´Ele foi também um artista único, pois é difícil apontar as influências que sofreu e também não deixou muitos seguidores.Iberê está mesmo à parte na pintura moderna brasileira, até por sua história pessoal. Ele nasceu em Restinga Seca, cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul em 1914, mas adulto veio para o Rio de Janeiro. Só que aqui não se ligou a nenhum movimento ou corrente artística, embora tenha mostrado admiração por outros artistas ditos independentes, como Alberto Grignard e Oswaldo Goeldi. Passou temporadas na Europa, onde estudou e conviveu com Giorgio de Chirico, Antônio Achille e André Lothé e, desde seus primeiros tempos, teve o reconhecimento da crítica e dos colecionadores. ´Isso permitiu que ele guardasse quadros de todas as fases, que hoje estão na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Outros artistas, tão reverenciados como ele hoje em dia, premidos pelas despesas cotidianas eram obrigados a vender seus quadros´, conta Luciana. A Fundação, criada pelo próprio artista, guarda também farto material produzido por ele (desenhos, estudos, fotos posadas ou do artista trabalhando, além de quadros, é claro). Calcula-se que ao morrer, em 1994, aos 79 anos, Iberê Camargo havia produzido cerca de 7 mil obras, boa parte levada para a fundação por sua mulher, Maria Coussirat Camargo.Para Luciana, trazer a obra de Iberê para uma galeria como a Ipanema é popularizar seu trabalho. Ele sempre foi um artista conceituado, expôs em bienais como a de São Paulo, Veneza, Tóquio e Madri, mas atualmente seus quadros estão mais na mão de colecionadores (alguns guardados em instituições públicas, como o Museu de Arte Moderna do Rio e o Museu de Arte Contemporânea, de Niterói) e são pouco vistos em mostras públicas. ´Aqui, teremos visitação escolar e, nos fins de semana, o salão enche como se fosse um museu´, diz Luciana.

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