Joe Schildhorn/BFANYC.com
Joe Schildhorn/BFANYC.com

Galeria a céu aberto

O gaúcho Saint Clair Cemin mostra sete esculturas na Broadway, a maioria produzida em seu ateliê de Pequim

Tonica Chagas, Especial para o 'Estado'

22 de setembro de 2012 | 20h36

NOVA YORK - O escultor brasileiro Saint Clair Cemin tem obras exibidas e colecionadas por galerias e museus conceituados na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia mas, como todo artista, ele sempre quis que seu trabalho - respeitado por connaisseurs em todo o mundo ainda antes de ele ganhar prestígio no Brasil -, pudesse ser visto pelo maior número possível de pessoas comuns. Aquelas que, como ele explica, “olham para as coisas e dizem ‘ah, este é um objeto bonito’ ou ‘isto não é bonito’, que dizem ‘gosto’ ou ‘não gosto’”. Esse desejo se concretizou na semana passada em Nova York, onde grandes esculturas de Cemin ganharam uma das ruas mais famosas do mundo, a Broadway, como galeria a céu aberto.

“A arte tem um poder mágico que fala diretamente ao inconsciente e esta é uma grande oportunidade para que a minha seja absorvida pelas pessoas”, festejava Cemin, debaixo de chuva, na noite em que comandou operários e guindastes na instalação de Vortex, a maior das suas sete peças distribuídas entre o centro da cidade e o Harlem. Saint Clair Cemin on Broadway ocorre ao mesmo tempo em que a Paul Kasmin Gallery, no Chelsea, exibe Six, grupo de seis esculturas inéditas, criadas pelo artista este ano. Six fica em exposição até 13 de outubro; as esculturas instaladas na Broadway, entre as ruas 57 e 157, poderão ser vistas até meados de novembro.

As duas mostras marcam também a retomada de NY como endereço principal de Cemin depois de ele passar os últimos seis anos em Paris, com temporadas regulares em Pequim. Nascido em Cruz Alta (RS), ele já havia morado na capital francesa dos 23 aos 26 anos e, sem concluir os estudos na École Nationale Supériore des Beaux Arts, mudou-se em 1978 para Nova York, onde construiu sua carreira internacional.

Fascinado pelo taoismo e pela tradição chinesa desde adolescente, ele visitou a China pela primeira vez em 1999 e, ao conhecer fundições com mais de um século de experiência na feitura de monumentos de bronze, decidiu abrir um ateliê por lá. Quase todas as esculturas que compõem as duas exposições atuais foram produzidas naquele ateliê, que lhe proporciona “uma concentração extraordinária graças à diferença de fusos horários”. Em Pequim, conta o escultor, ele levanta cedo e trabalha o dia todo “sem ser interrompido por ninguém porque o resto do mundo está dormindo!”.

A monumental Vortex, criada em 2008 para a Feira de Arte Contemporânea de Pequim e exibida nos EUA pela primeira vez, é o maior exemplo do que Cemin consegue com a colaboração da paciência e das técnicas chinesas. Baseada no princípio giratório dos moinhos tibetanos, em que cada volta é uma oração para contato com o macrocosmo, a peça é uma torre de aço inoxidável superpolido com 12 metros de altura e sulcada por espirais. Instalado na área exclusiva para pedestres no cruzamento da Broadway com a Rua 57, o “moinho” de Cemin remete ao desejo humano de transcendência e lança para o céu as imagens que espelha.

Cinco quarteirões acima está O Pensador (2008), um homem abstrato sentado no chão e tentando tocar os pés. O escultor expressou seus pensamentos na própria pele da figura de aço inoxidável martelado e superfície coberta por torvelinhos. Do mesmo material que O Pensador, na Broadway com a 72, está The Four (1997), conjunto de octaedros regulares que se sucedem em tamanho, mas dão a sensação de se reproduzirem em escalas diferentes, combinando geométrico com orgânico. Uma quadra adiante, o artista plástico que um dia pensou em ser filósofo demonstra como “a arte é uma filosofia pré-linguagem” em Portrait of the Word Why (2008), uma obra tão reluzente quanto Vortex e tão enigmática quanto a palavra que a inspirou.

“Toda arte tem uma relação pessoal”, diz Cemin que, mesmo sendo poliglota e cidadão do mundo, afirma num inconfundível sotaque gaúcho estar nas suas memórias mais arraigadas a base fundamental do seu trabalho. Lembranças do tempo de criança que vivia numa fazenda onde a água era tirada de poços se solidificam no mármore em In the Center (2002), na Broadway com a 79. Na escultura semiabstrata, os braços de um homem de chapéu se transformam numa forquilha usada por radiestesistas.

Duas esculturas completam o conjunto de estreia de Cemin na arte pública em NY: Aphrodite (2006), vista na altura da Rua 117, é uma versão ampliada em cobre (o material alquímico da deusa do amor) de uma pequena escultura de madeira que ele criou no início da década de 1990; The Wind (2002), na Broadway com a 157, também é baseada numa peça pequena de argila que foi decuplicada em gesso e, finalmente, copiada em mármore, com 2 m de altura e mais de 2 toneladas de peso.

As seis esculturas que formam Six, segundo Cemin, são muito inspiradas em experiências por que ele passou por volta dos 2 e 3 anos e o marcaram com um profundo sentimento de perda. O núcleo da exposição na Paul Kasmin é Maman, um grande lápis de bronze policromado que se equilibra pela ponta sobre uma mesa de aço inoxidável pintado. “É um retrato metafórico de minha mãe, que é muito exata e criativa”, comenta o autor.

O grupo de obras inéditas inclui mais dois retratos desse tipo. Shadow, sombra tridimensional de uma figura humana feita de madeira de amoreira chinesa reciclada e laqueada, que se equilibra sobre um pedestal de bronze, retrata o inconsciente. O bronze superpolido And Then (I Close My Eyes) que Cemin diz ser “um Buda imperfeito numa meditação distraída”, é também um autorretrato.

World As Flow e Greece são abstrações de movimentos inversos. Como mandalas tridimensionais passando uma pela outra, a primeira faz alusão à energia interior de um mundo fechado; Greece, figura geométrica emaranhada nos próprios membros ou tentáculos, segundo Cemin lembra uma “expansão através dos séculos”. Justapondo erudição e ironia assim como faz com materiais e estilos, o escultor batizou a mais reluzente das peças de Epimetheus, o ingênuo irmão gêmeo de Prometeu. Ele conta que o primeiro nome que pensou em dar a essa escultura era Banker (banqueiro), “porque, como o titã enganado, ele pensa que está fazendo milhões mas está apenas destruindo a economia mundial”.

Tudo o que sabemos sobre:
BroadwayexposiçõesSaint Clair Cemin

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.