Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Gal Costa lança DVD de 'Recanto' e prepara novas apresentações

Show é um dos mais elogiados de 2012 e instiga a renovação da cantora

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2013 | 02h10

Em quase 50 anos de carreira, poucas vezes Gal Costa registrou shows em discos, menos ainda em vídeo. "Para se gravar um disco ao vivo, tem de ser um show muito especial. Este valeu a pena", justificou ela, anteontem em entrevista em São Paulo para divulgar o DVD e o CD duplo Recanto ao Vivo (Universal Music), com a íntegra do show, que estará à venda a partir de segunda-feira.

Superando expectativas dela, da gravadora e do público, o show - consagrado como um dos melhores de 2012 - vem crescendo espantosamente no boca a boca. E é neste 2013 que ele vai decolar mais alto. De 20 a 24 deste mês, Gal percorre grandes cidades do interior e do litoral de São Paulo, volta à capital em abril para selar o lançamento do DVD/CD no Teatro Bradesco, depois faz mais oito sessões no Sesc Pinheiros. Volta a outras praças como Salvador (onde vai cantar na Concha Acústica), em junho parte para a Europa e segue até o fim do ano no mesmo ritmo.

"Já estou aguçada, em ebulição para o próximo disco, mas não vou falar nada sobre isso agora. Este ano ainda vou continuar nesse re-canto", diz. Dirigido por Caetano Veloso, autor de todas as canções do CD em que foi baseado, Recanto é reconhecido tanto por Gal como por admiradores como marco de mais um renascimento artístico. "É como foram tantos outros e como deve ser. É um renascimento no sentido de eu estar em contato com aquilo que gosto, que é ser instigada, instigar, ter contato com a estranheza e a beleza. O disco é forte. Tudo isso me seduz. A 'renovação' se coloca na minha vida porque estou em contato com todas essas coisas que me desafiam, me empurram, me levam adiante."

As canções, como ela reafirma, cresceram ao vivo, tomaram outra dimensão em paralelo a clássicos marcantes de sua carreira, que soam como novos agora, a maioria assinada por Caetano. "Ele me pediu que cantasse cool, manso, todas as canções, exceto Autotune Autoerótico, que pede mais, mas em Neguinho também subi um tom ao vivo. Gosto do resultado do show porque é mais rock", diz Gal.

"No palco, a emoção vem, as coisas acontecem no momento, as canções vão ficando ricas porque a gente vai vivenciando cada uma delas, tanto eu como os músicos, e elas vão crescendo", prossegue. "No show, comecei a tomar mais intimidade com as canções e me apropriei delas. Eram do compositor e viraram minhas."

Algumas ganharam novos contornos, arranjos mais pesados, como Cara do Mundo, mais roqueira, e o som do CD/DVD, com direção de áudio de Moreno Veloso, é surpreendentemente bom, se comparado com a maioria dos discos ao vivo gravados no Brasil, um formato banalizado que este de Gal revaloriza agora.

O ambiente da gravação favoreceu: é o Teatro Tereza Rachel, no Rio, reformado e agora renomeado Net, o mesmo onde ela gravou um de seus discos históricos, Fa-tal - Gal a Todo Vapor (1971), seu primeiro solo ao vivo. "Já que esse show é uma revisão, uma tentativa de buscar a minha história, de trazer à tona todas das 'Gals', é bem simbólico que fosse gravado naquele lugar, embora esteja diferente. Antes, era muito esculhambado, maltratado. É muito bom que esteja diferente, porque eu também estou, todos estamos", diz, bem-humorada.

Gal chegou a chorar em Vapor Barato (Jards Macalé/Waly Salomão), um dos momentos mais fortes do show. Nos extras do DVD, ela lembra que a canção foi lançada naquele mesmo palco, há mais de 40 anos. Coincidentemente, Pepeu Gomes, que substituiu Lanny Gordin na guitarra, fazia o solo que agora está nas mãos de seu filho com Baby Consuelo, Pedro Baby.

Se Recanto, o CD de estúdio, tem ligação com Cantar, outro disco que causou estranheza quando lançado em 1974 e, como o mais recente, foi totalmente dirigido por Caetano, Recanto ao Vivo remete a Fa-tal também por serem dois momentos pontuais na carreira de Gal, novamente cercada por uma banda concisa formada por músicos jovens e criativos. Além de Pedro (guitarras), ela canta acompanhada por Domenico Lancellotti (bateria e MPC) e Bruno Di Lullo (baixo). "Eles trouxeram informações novas e a grande beleza disso tudo é que têm informações minhas também, ouvem meus discos antigos. Essa troca é linda, existe uma harmonia musical entre a gente."

Fa-tal tinha uma parte só de voz e violão e outra puxando pro rock. Como as coisas sagradas permanecem, não é por acaso que agora - quando ela alterna outros momentos intimistas de voz e violão com pulsantes arranjos à base de programações eletrônicas - se faz essa ligação.

Também contribui para o resultado positivo o comportamento da plateia, atenta e respeitosa (o que tem sido muito raro de uns anos para cá), que, mesmo arrebatada, contém o ímpeto de entoar junto com ela canções conhecidas que ela recanta agora, como Folhetim (Chico Buarque), Barato Total (Gilberto Gil) e Força Estranha (Caetano Veloso), Divino, Maravilhoso (Caetano/Gil).

"Tenho ficado impressionada com a atitude do público nesse show, até mesmo quando cantei no Circo Voador, que é um lugar mais de festa, agora em janeiro. Quando entrei foi uma gritaria que deixou meus tímpanos doendo", conta. "E aquela ovação não parava, não parava, não parava. Então, fiz sinal com as mãos pedindo para eles se acalmarem, pra eu cantar a primeira canção. E as pessoas ouviram Da Maior Importância em total silêncio. E assim foi em quase todas as outras músicas. Foi uma coisa linda, saí muito comovida de lá."

Minha voz, minha vida. No DVD, a primeira imagem é o rosto de Gal, diminuto no meio da tela, como um ponto de luz que vai se abrindo. "Aquela luz que Caetano criou sugere que o show seja intimista. Explicita, deixa escancarada a intensidade e a densidade que tem no espetáculo, as canções e tudo o mais. Se tivesse mais informação, tipo cenários e mais luzes, talvez essa densidade se dispersasse", observa ela.

A opção pelo despojamento visual diz muito sobre o relevo que Caetano quis dar à voz singular da cantora, que é o centro gravitacional. "O som da voz da Gal leva a gente pra fora. Você se sente deixar levar por aquele som quase sobrenaturalmente e vai para outras dimensões. Percebi isso na voz de Gal desde que a conheci e vi acontecer diversas vezes ao longo da carreira dela. Parece que você sai do tempo. Aquele som não é explicado, é acontecido", diz Caetano.

Gal replica, dizendo que quando canta não pensa: "Tudo o que você precisa pensar sobre uma canção deve pensar antes. E aí você deixa ela ir embora". Ao que Caetano retoma: "Adorei isso. Agora você explicou o que a gente queria saber".

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