Gaiteiro viajante gaiteiro

O fole é amplo e generoso. Não une apenas as duas extremidades da gaita: une fronteiras que até pouco tempo pareciam distantes. Como protagonista desta aproximação está Renato Borghetti, 49 anos, um dos nomes de maior expressão da música feita no Rio Grande do Sul nas últimas três décadas. Artista que também se equilibra entre o regional e o universal, Borghetti é criador de uma obra profundamente enraizada no que o Estado tem de mais legítimo, mas há anos vem rompendo fronteiras, não apenas no Rio Grande do Sul e no Brasil mas também no exterior. "Sempre fui aventureiro. Sempre gostei de sair mundo afora. Desde guri que tinha a vontade de conhecer lugares diferentes. E a música tem me proporcionado isto. A gaita que começou quase como um brinquedo, me levou longe. Eu viajo nos sons dela", explica Borghetti.

MÁRCIO PINHEIRO , ESPECIAL PARA O ESTADO , PORTO ALEGRE, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2012 | 03h09

Para o gaiteiro, há pelo menos uma década e meia que a música vem sendo sua embaixada e a gaita seu passaporte. Desde o fim do século passado, Borghetti vem cultivando uma crescente carreira no Exterior, mantendo os Estados Unidos e a Europa como destinos frequentes, com pelo menos duas longas turnês garantidas a cada 12 meses - embora já tenha havido casos de cinco turnês no mesmo ano.

O roteiro mais recente, que ainda vem sendo cumprido, incluiu o Texas, nos Estados Unidos, mais as participações em dois festivais importantes do Canadá (o Mission Folk Festival e o Calgary Folk Festival). Na semana passada, a turnê ainda se estendia pela França e Itália, com shows no Festival Latino-Americano de Milão.

Há dois anos, numa das turnês mais longas, Borghetti passou por festivais e concertos em Portugal, Áustria, Hungria, Eslovênia, Itália, Inglaterra, Finlândia e Bélgica, além de uma esticada aos EUA (onde tocou num festival em Chicago) e no Canadá.

Tamanha quilometragem deu origem ao DVD Na Estrada. O projeto, feito em parceria com o diretor gaúcho Rene Goya Filho, é uma sequência natural de outro DVD que os dois haviam produzido em 2008: Fandango, trabalho indicado para o Grammy Latino em 2009. "Pude ver quanto o público europeu se identifica com o acordeão e com a música do Borghetti. Filmamos em locais tão diversos quanto clubes de jazz, teatros, parques, praças, salas de concertos e não apenas em festivais de acordeão", lembra Goya.

Nascido e criado em Porto Alegre, mas com forte identificação com a vida campeira - seu pai é presidente do Instituto Gaúcho de Tradições e Folclore -, Borghetti transformou sua casa, em Barra do Ribeiro, município a 30 quilômetros de Porto Alegre, numa base para seus projetos musicais. Lá ele já recebeu amigos como Armandinho, Yamandú Costa, Geraldo Flach, Luiz Carlos Borges e Naná Vasconcelos, além dos músicos "da casa", parceiros que há anos integram o círculo mais próximo do gaiteiro: Daniel Sá (violão), Pedrinho Figueiredo (flauta e saxofone), Vitor Peixoto (teclados), Hilton Vaccari (violão), Ricardo Baumgarten (contrabaixo), Kako Pacheco (percussão, em especial no bombo leguero) e Marquinhos Fê (bateria).

Pelo fato de fazer música instrumental - "Grosso não faz jazz", brinca -, Borghetti conta que a gaita que o acompanha desde os 10 anos merece um tratamento especial. Assim, o instrumento nunca é despachado, viajando no banco ao seu lado. Além disso, Borghetti mantém um contrato com a Scandalli, principal fábrica italiana - e talvez do mundo - de gaitas e acordeões para que tudo saia sob medida. O instrumento usado por ele segue recomendações como ter um fole reforçado, palhetas resistentes e com determinadas partes feitas de aço e madeira. "É a Ferrari das gaitas."

À gaita, que tantas alegrias já lhe deu, Borghettinho agora retribui. Há dois anos, ele criou a Fábrica de Gaiteiros, local onde fabrica gaitas-ponto e promove aulas de formação de novos músicos. O projeto é realizado nas oficinas de marcenaria e mecânica de um colégio em Guaíba, cidade vizinha a Porto Alegre, e está sendo ampliado para outras três localidades: Barra do Ribeiro, São Gabriel e Rio Grande. A ideia é expandir.

"Na época em que comecei a tocar ainda existiam fábricas de gaitas no Brasil. Lembro que no Rio Grande do Sul havia mais de 20. Logo em seguida elas fecharam, foram desativadas ou mudaram de produto. Como uma criança que goste do instrumento vai poder começar a tocar?", pergunta Borghetti. E responde: "Agora, o meu projeto é aproximar o instrumento das novas gerações e, quem sabe, formar novos talentos da gaita".

Esta é outra fronteira que ele pretende ultrapassar.

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