Gaby Amarantos não vai pro céu

Ou vai sim, justamente por fazer o que faz quando está no palco e por dar sinais de que um país todo mudou

PEDRO ALEXANDRE SANCHES, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2012 | 03h09

"Um lamento triste sempre ecoou/ desde que o índio guerreiro foi pro cativeiro e de lá cantou/ negro entoou um canto de revolta pelos ares/ no Quilombo dos Palmares, onde se refugiou", proclama desde 1976 o Canto das Três Raças, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, eternizado pela mineira Clara Nunes.

Na madrugada chuvosa de sexta-feira, brilharam no palco paulistano do Beco 203, na Rua Augusta, uma índia paraense do bairro pobre do Jurunas, em Belém, e um negro paulista do quilombo do Cachoeira, região montanhosa na zona noroeste da capital. A dona do show (e rainha do tecnobrega), Gaby Amarantos conta no fim, cheia de orgulho, que um "brega" paraense defendido por sua voz será tema de abertura da próxima novela das 7 da Rede Globo.

Para reencenar com ela o Canto das Três Raças, Gaby chama ao palco o rapper paulistano Emicida. Ela tece loas à "nova música brasileira", capaz de congregar num mesmo espaço a descontração do tecnobrega paraense e a concentração do rap paulista. Ele improvisa rimas de protesto contra a ocupação policial do bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos, e da Cracolândia, no centro da capital, e contra os governantes paulistas.

O público jovem de classe média alta, que já vinha abaixo diante dos comandos pop e das luzes de aparelhagem grudadas ao figurino de Gaby, vem abaixo com as provocações de Emicida. "Pinheirinho! Pinheirinho!", entoa a plateia no fim do Canto das Três Raças, juntando ao coro um slogan-palavrão direcionado, algo erroneamente, ao prefeito Gilberto Kassab. Estamos diante de uma cena símbolo das transformações vividas pelo Brasil e por aquilo que Gaby chama de "nova música brasileira".

Parece estar acabando o tempo em que cenas chamadas "indie" cresciam nos centros urbanos cosmopolitas, enquanto periferias dispersas País afora se desenvolviam separadas em cenas distintas (mas semelhantes na produção artesanal) como axé music baiana, funk carioca, sertanejo paulista, forró cearense, lambadão mato-grossense, tchê music gaúcha e assim por diante. Juntos, Gaby e Emicida celebram aquilo que os une, por cima de quaisquer diferenças quanto a ideologia, estética, política ou hedonismo.

Gaby, em especial, encena em si a contradição ambulante de que falava Raul Seixas quase 40 anos atrás. Com vozeirão e presença de palco incomuns, ostenta vocação evidente para ser uma próxima Ivete Sangalo, mas, por enquanto, permanece "indie". A empatia explosiva entre o público do chamado Baixo Augusta demonstra isso com nitidez.

Calibrando discurso que já adotara ao lado de Regina Casé, no programa global Esquenta, elogia as próprias curvas robustas: "Eu me amo do jeito que sou, me acho gostosa". Anos atrás, a pós-tropicalista Preta Gil teve de se submeter ao escárnio cruel de pretensos humoristas televisivos, e a funkeira Tati Quebra-Barraco fez fama em cima do bordão "sou feia, mas tô na moda". Hoje, a índia amazônica corpulenta Gaby sobe vários degraus de autoestima e se afirma bonita, simplesmente.

A plateia que já gritara "Pinheirinho!" urra "gostosa!", com intensidade e vigor equivalentes. De acordo com o momento, o mesmo público pode usar os braços para fazer o "X", o "T" ou o "G" (motes pop das aparelhagens de tecnobrega), desenhar fatídico "coração com as mãos" (outro bordão apropriado por Gaby), emitir a mãozinha de "capeta" do heavy metal ou gravar no celular o tema inédito da futura abertura de novela. "Eu vou samplear, eu vou te roubar", canta a Xirley de Gaby (e do compositor pernambucano Zé Cafofinho), disseminando outro princípio fundador e agregador de seu tecnomelody, do funk debochado dos cariocas ou do rap feroz do patrono Mano Brown.

A nova cena em que Gaby e Emicida fazem porta-bandeira e mestre-sala é pujante e vigorosa como havia décadas o Brasil não testemunhava. Ela, que já mandara um viva para Elizeth Cardoso ao cantar Eu Bebo, Sim (1973), emenda o protesto bravo do rapper a versões festivas em português de The Model (1978), do Kraftwerk, e das discotheques Funkytown (1980) - "eu tenho medo de hospital", segundo a paródia paraense - e Ring My Bell (1979) - em vez de "you can ring my bell", "eu não vou pro céu".

Nesse novo desenho musical brasileiro, manguebit, samba, pagode, moda caipira, música eletrônica de índios amazônicos e repente de quilombolas paulistanos não precisam competir uns com os outros. Ao contrário, somam-se como partes que querem integrar um todo plural, diverso, heterogêneo, harmonioso. E dividindo o mesmo palco, sempre que possível.

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