'Gabriela' exagera nas cores

Com boa audiência, nova versão da Globo peca pelo excesso de recursos

O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2012 | 03h11

São infinitos os recursos operados pela tecnologia que promove milagres na pós-produção de cenas audiovisuais, mas convém que a coloração de imagens seja usada a favor das cenas submetidas a tanto. A nova Gabriela é um primor em contrastes e cores, mas um primor que denuncia exagero no uso de tais recursos. O laranja do céu sertanejo ficou mais laranja, o azul, mais azul, assim como o marrom estampado na sujeira do rosto e das vestes de Juliana Paes. Como pecado de tamanho contraste, o branco total dos dentes da atriz saltam aos olhos, tornando as mazelas da personagem uma produção prévia e detalhadamente arranjada. Soou falso.

Mas, admitamos: o dedilhar da viola, somado ao pausado trajeto da retirante, cada ação a seu tempo, sem a pressa que vitima toda a dramaturgia televisiva ao ritmo videoclipado, foi obra corajosa de Walcyr Carrasco, responsável pela nova adaptação do clássico de Jorge Amado, e do diretor-geral Mauro Mendonça Filho.

A novela foi aberta com uma preguiçosa (embora direta para a compreensão da massa) sequência de flashback. Coronel Ramiro trouxe então um Antonio Fagundes com cabelos mais compridos, apenas tingidos de preto, e a sequência valorizou o tom sépia, como aviso de que aquilo era coisa do passado. Ramiro reaparece no presente, com um Fagundes de cabelos branquinhos, ralos e algum resquício de seus coronéis em outras novelas - uma vez Mezenga (Rei do Gado) para sempre Mezenga no modo de falar como quem mastiga palha. Em compensação, não há risco de comparação com o outro coronel Ramiro, Sr. Paulo Gracindo, amém.

Ivete Sangalo na voz de Maria Machadão é grata surpresa. Faz o seu, como dona do cabaré Bataclan, e protagoniza algumas das melhores frases do primeiro capítulo - "Puta que se apaixona é burra", diz a Leona Cavali. E traz duas vantagens: baiana que é, não cai naquele sotaque nordestino adquirido em aula de prosódia. E, cantora de fato, endossa a afinação ao protagonizar showzinho a capela.

Gabriela mesmo ainda é um bicho retraído. Juliana Paes mal teve a chance de abrir a boca. Fiquemos com a maledicência de Humberto Martins, um turco Nacib mais libidinoso do que seus pares - Armando Bógus na novela de 1975 e Marcelo Mastroiani no cinema. Há, no personagem da atual produção, um tom cafajeste acima daquele que marcou as interpretações do papel.

Algumas cenas da nova produção, tratada pela Globo como releitura do livro, e não do folhetim de 75, são muito semelhantes com a novela do passado. Ali estão o encontro de Gabriela com os dois retirantes, a caminho de Ilhéus, a saída de Nacib bêbado do Bataclan e a prostituta indo ao seu encontro no bar: registros bem preservados pelo YouTube denunciam o espelho entre as duas versões.

O texto de Carrasco faz jus ao original. Diálogos precisos e diretos mantêm a maestria de Amado no seu patamar, com entrosamento evidente de direção de imagens e de atores.

A audiência respondeu bem, com 30 pontos de média no Ibope de São Paulo, nível superior ao do seriado Tapas & Beijos, exibido às terças - às segundas, naquele horário, a Globo exibe Tela Quente, sendo daí imprópria a comparação com a segunda-feira anterior.

Crítica: Cristina Padiglione

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