Gabriel Villela recupera a malandragem

A malandragem está de roupa nova e pronta para se defender contra os ianques. Instalada no lendário Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), a Companhia Estável de Repertório estréia nessa sexta-feira sua primeira grande montagem, a Ópera do Malandro, musical de Chico Buarque, com que pretende resgatar um estilo brasileiro de cantar. "Muito diferente daquele jeito americano da Broadway, que está nos rodeando", explica o diretor Gabriel Villela, referindo-se aos musicais estrangeiros que estão por tomar os palcos paulistanos.Comandante do elenco fixo de 25 atores, Villela adotou um estilo detalhadamente espalhafatoso para sua encenação - a cenografia de J.C. Serroni, por exemplo, toma o palco com uma reconstituição em três níveis de um depósito de mercadorias falsificadas ou contrabandeadas. Não satisfeito, fez com que os andares superiores invadissem a área da platéia, permitindo uma proximidade do público com paredes recheadas de celulares, relógios, computadores, sacos de cocaína (falsa) e garrafas de uísque, tudo colocado em 700 caixas de madeira, compradas no Ceasa. "Trata-se de um imenso saloon de faroeste, que representa a falta de identidade e a crise de valores que o País atravessa", explica o diretor. "Fiquei entre a erudição e a arte popular, satirizando esse estado de bandalheira generalizada, que faz o malandro virar herói."Serroni fez diversas pesquisas para conseguir autenticidade no cenário. Freqüentou, por exemplo, a galeria Pajé, no centro de São Paulo, templo do comércio de produtos de procedência duvidosa. Foi ainda a uma delegacia de polícia, onde observou a forma como são guardados desde os pertences dos policiais como o material apreendido. "A pesquisa de campo foi completada com diversos filmes de faroeste que revi no vídeo, o que me ajudou a criar o ambiente de saloon", conta o cenógrafo, que atendeu ao pedido do diretor de construir um espaço barroco. Paulo Liebert/AE"Misturamos a sofisticação de Chico Buarque à cafonice estética para fazer graça da mediocridade reinante"Villela está exultante com o trabalho. Desde que assumiu a direção artística do TBC, decidiu retomar a antiga tradição do teatro que, em 52 anos de história, abrigou diversas companhias de repertório, instigando um trabalho sólido e contínuo. "Pretendo fazer uma revisão profunda do artista que sou e conto para isso, com esse grupo para o projeto." Aos 40 anos, com 146 prêmios atribuídos às 17 peças que dirigiu em 11 anos de carreira e recuperado de uma crise que o atordoou em 1997, quando se internou por uso de drogas, Villela quer promover também o renascimento do TBC, cuja reforma total completa hoje um ano, por meio da paródia. "Misturamos a sofisticação de Chico Buarque à cafonice estética para fazer graça da mediocridade reinante."Erro bem-feito - Na Ópera do Malandro, o erro é proposital - tanto os atores como os músicos são incitados a desafinar, a errar a marcação, a exagerar na interpretação. Até o cenário de Serroni possui escalas deliberamente tortas. A intenção, segundo Villela, é subverter ao errar. "Trata-se do malfeito bem executado", justifica-se. Maria Thaís, que assina a preparação corporal, concebeu uma forma de representação aberta para a platéia, com o propósito de revelar códigos para o público. "Desenvolvemos a coordenação motora para que o ator conseguisse ser descoordenado artificialmente", explica.Os figurinos seguem o mesmo conceito. Incrementadas por próteses genitais deformadas, compradas em Londres pelo diretor, as roupas aproveitam o tecido e os adereços de mais de 200 vestidos de noiva, que foram comprados por Villela e o figurinista Leopoldo Pacheco em lojas de roupas usadas. Ao todo, utilizaram 4 mil metros de tule, seda, cetim e tafetá, entre outros tecidos. "Colocamos também anúncios em jornais, que incentivaram muitas mulheres a se desfazerem de seus vestidos", conta o diretor. "E 80% deles trazem a marca do fracasso sentimental." Os tecidos permitiram ainda a confecção de 12 cortinas, que J.C. Serroni utiliza para delimitar o espaço no palco.Os vestidos lembram casamento, que é o traço fundamental a unir as outras peças de Chico Buarque que Villela pretende montar com a companhia de repertório - depois da Ópera..., ele planeja estrear Gota d´Água no dia 1.º de maio e Calabar, em 12 de outubro do próximo ano. "Todos tratam da dificuldade de se manter uma união e da falência do casamento." Também virão os espetáculos infantis em que Chico dividiu parcerias: O Grande Circo Místico, previsto para janeiro e montado pelo Cidade Muda, grupo que traz na bagagem 15 anos de experiência em espetáculos com bonecos; e o musical Os Saltimbancos, que compôs com Edu Lobo e que deverá estrear em outubro de 2001. "Admiro muito o olhar aguçado com que o Chico analisa as questões sociais, políticas e culturais."A Ópera do Malandro foi finalizada pelo compositor em 1978 e baseada na Ópera dos Três Vinténs, escrita 50 anos antes, por Bertolt Brecht e Kurt Weil, que, por sua vez, se inspiraram na Ópera dos Mendigos, de John Gay, lançada em 1728. "Trata-se, portanto, de um processo de apropriação de uma outra apropriação, o que nos permite ter liberdade total na montagem", comenta Villela, que foi fiel à trama escrita por Chico, adaptada para o cinema por Ruy Guerra, em 1985. Sérgio Castro/AEO figurino foi feito com 200 vestidos de noiva e 4 mil metros de tule, seda, cetim e tafetá, entre outros tecidosA peça conta a história do casal Fernando Duran e Vitória Régia, proprietários de um bordel da Lapa carioca, freqüentado por bandidos e policiais e onde a relação entre a lei e o crime é promíscua. Duran e Vitória são os pais de Teresinha, menina delicada que foi enviada para o exterior para que crescesse longe da bandidagem. Ao voltar, porém, Teresinha casa-se com o malandro Max Overseas, revelando um inesperado talento para o submundo ao assumir o controle do contrabando. Outro personagem memorável é o travesti Geni, apaixonado pelo delegado da cidade.A trilha sonora é composta por canções conhecidas como Folhetim, Geni e o Zepelim, O Meu Amor e Pedaço de Mim. "A obra de Chico Buarque permite uma identificação permanente com a cultura popular", avalia Villela. "Basta alguém começar a cantar alguma dessas canções que imediatamente a letra é reconhecida por todos."Seleção de atores - O diretor comanda um elenco formado por atores desconhecidos, escolhidos por seleção. No início do processo, cerca de 600 currículos foram analisados, dos quais 180 foram pré-selecionados. Os pretendentes foram então avaliados em testes de canto, dança e interpretação, realizados em maio, até que os 25 finalistas fossem escolhidos. Como pela primeira vez em sua carreira não cuidou dos cenários e figurinos Villela conseguiu dedicar-se inteiramente à direção. "É uma experiência nova não ter diversas preocupações, mas muito proveitosa, pois posso fixar o pensamento nos atores", explica ele, que comanda uma produção avaliada em R$ 900 mil.Villela não participou também da iluminação, idealizada pelo designer Guilherme Bonfanti, que apostou no excesso. Para isso, ele misturou uma grande quantidade de lâmpadas não convencionais (com destaque para fluorescentes e de fibra ótica) com outras linguagens, como as "movie lights" (refletores computadorizados) e os equipamentos tradicionais do teatro.Ópera do Malandro - Musical. De Chico Buarque. Direção Gabriel Villela. Duração: 2 horas. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 10,00 (quinta); R$ 15,00 (sexta); R$ 25,00 (sábado) e R$ 20,00 (domingo). TBC - Sala TBC. Rua Major Diogo, 315, tel. 3115-4622. Até 17/12. Patrocínio: Grupo Schahin

Agencia Estado,

28 de setembro de 2000 | 18h45

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