De passagem por Paris, visito meu colega de Estado Gilles Lapouge, a quem tanto admiro como jornalista, escritor, homem de ideais. Vou ao seu escritório, num rez-de-chaussée da rue Fondary, cuja campainha é substituída por uma batidinha no vidro da janela. Suficiente para Gilles erguer-se da mesa de trabalho e abrir a porta. Proseamos na gostosa bagunça onde meu amigo produz artigos e livros, num ritual diário. Antes de sairmos para almoçar, sugiro que ele me presenteie com o seu Dictionnaire Amoureux Du Brésil, lançado na França em 2011. Ganho um volume com dedicatória, oba.

20 de julho de 2013 | 02h17

Conversamos muito, almoçamos bem e nos despedimos à porta da estação do metrô. No trem, tiro da bolsa o tijolo de 650 páginas (imaginei que fosse um livrinho...) e ao ler as primeiras linhas desejo ficar para sempre no vagão: "Há muito amei o Brasil e ainda o amo. Há 60 anos o frequento. Vou vê-lo. Falo com ele. Trocamos ideias, lembranças, malícias. Ele me conta suas histórias. Se estou longe, escuto sua respiração (...)".

Ah, o estilo Gilles... escritas por um francês que chegou aqui em 1951, para trabalhar neste jornal, e que aos 89 anos ainda ouve/sente a respiração do País, essas linhas definitivamente testemunham uma paixão. Continuo a leitura na volta ao Brasil. Tem funcionado como contraponto a um tempo em que as pessoas não fazem declarações apaixonadas ao lugar onde vivem, ao contrário, reclamam da má qualidade dos serviços urbanos, da rede de saúde e do sistema de ensino, da carga tributária absurda, do custo de vida, do padrão Fifa que indigna, do desencanto com a classe política. Um tempo em que as pessoas não querem falar de amor com o Brasil.

O livro do Gilles faz parte de uma coleção de dicionários amorosos dirigida por Jean-Claude Simoën, em que Mario Vargas Llosa trata de América Latina, Elias Sanbar de Palestina, Jacques Attali de judaísmo, Alain Ducasse de gastronomia, Bernard Pivot de vinhos, Trinh Xuan Thuan do céu e das estrelas, só para citar alguns volumes. Os dicionários se organizam numa sequência de ensaios com temas ou personagens que correspondem sempre a uma letra do nosso alfabeto. Por exemplo, Gilles abre sua letra "a" tratando de "abelhas", espécie que estuda há tempos e sobre a qual prepara um livro. Conta como viu chegarem ao Brasil as abelhas africanas, que iriam cruzar com as abelhas brasileiras de origem europeia e assim dar origem a uma abelha nativa, hábil polinizadora das nossas orquídeas e bromélias. As letras do alfabeto se sucedem em ensaios para "c" de café, "d" de Debret, "f" de favela, "m" de música, "r" de Rio de Janeiro, "s" de sacristias, "v" de Verger, Pierre, e assim vai.

Mesmo compondo um dicionário amoroso, não faria sentido o autor se render ao enlevo - o que, em termos literários, seria chato - porque a relação amorosa é feita de conflitos, contradições, ambiguidades, o que vale para pessoas e lugares. E, no caso, para Gilles e o Brasil. Gilles fala de um povo sedutor, mas violento. De uma sociedade vibrante, mas injusta. E de um imaginário poderoso, capaz de sintetizar num cordel as emoções de uma guerra.

No fim da leitura, o que fica de sua incursão brasileira é a própria capacidade de entrega ao País que o engolfou para sempre. Quero que saibam: antes de escrever essas linhas, pedi permissão ao mestre para tratar do livro. Recebi sua confirmação animada, insistindo que montar um dicionário amoroso não é experiência açucarada, mas louca aventura, afinal, l'amour est fou. Chegou até a cogitar a viabilidade de um dicionário amoroso coletivo.

Tomo lápis e papel para esboçar a estrutura do que seria o meu dicionário - sugestão lúdica que faço aos leitores. (Não, não queiram montar o Dicionário Raivoso do Brasil, vale identificar aquilo que neste País nos encanta e nos faz brigar por ele.) O meu esboço tende a não ser grandiloquente, nem vistoso como um carro alegórico de escola de samba, padrão Globo. Abriria com "a" de amanhecer, algo tão diferentemente belo, em tantas partes do Brasil. Coleciono amanheceres na memória. Prosseguiria com "b" de brisa, essa experiência atlântica, sensual e única, que nos fez cunhar a boa expressão "viver de brisa". Chegaria reverentemente ao "d" de Drummond, Carlos e ao "r" de Rosa, João Guimarães. Trataria de "g" de ginga, quem sabe "t" de tamborim, mas não faltaria o "v"de Villa-Lobos, Heitor. E, claro, abordaria o "p" de privilégio, cuja definição foi escandalosamente deformada nessas plagas.

Sim, a deformação dorme e acorda conosco, vai ao trabalho, volta para casa, está no corredor do hospital, na lista do vestibular, na cor da pele, no gabinete do figurão, num certo cinismo do jeitinho brasileiro. O privilégio fez-se onipresente e nos cega com sua luz forjada. E por que, meu Deus, se eu só queria despertar todos os dias na página do "b" de bem-te-vi e ter a certeza da sua saudação matinal? Privilégio é assim: simples, gratificante, democrático. Aqui ele é tudo o que nos divide.

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