Futuro da universidade preocupa Milton Santos

O professor Milton Santos é incansável. Aos 74 anos e considerado o mais importante geógrafo brasileiro, ele demonstra-se forte o suficiente para apontar os problemas da universidade brasileira, desmistificar a idéia de que a globalização vai ampliar o espaço do cidadão no mundo, e criticar aqueles que apontam os centros urbanos modernos como destruidores da experiência humana.Formado em Direito, em 1948, pela Universidade Federal da Bahia, doutorou-se em Geografia pela Universidade de Estrasburgo, na França, período em que esteve auto-exilado. Foram 13 anos longe do Brasil, quando foi professor no Canadá e na Venezuela, além de passar pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e Universidade de Columbia, ambos nos Estados Unidos e, pouco antes do retorno, trabalhou ainda em Dar-es-Salaam, na Tanzânia. "Nenhuma delas era a minha terra, mas, em todas, senti a vontade de evitar a desagregação e foi assim que, com a minha ignorância crescente do Brasil, me senti jogado no caminho da filosofia". A distância permitiu ainda que Santos desenvolvesse conceitos inovadores sobre a organização das cidades, derrubando idéias arraigadas. "O que destrói é a civilização que nós adotamos, pois a cidade aparece como manifestação representativa dela", acredita.Apesar do reconhecimento de sua obra, Santos lembra que a vida acadêmica não segue uma via paralela à vida mundana. "Nossas universidades se tornaram quase tão burocráticas como um supermercado: há estoques e tudo é muito contabilizado", adverte. Para Milton Santos, o trabalho do intelectual em geral amesquinhou-se e banalizou-se. Tornou-se uma prática compulsória.O futuro da universidade é uma de suas preocupações constantes, especialmente com perigoso crescimento do conceito que prega a entidade como porta-voz da globalização. "É preocupante o enorme descuido com o papel da universidade. Corremos o risco de ficar com a palavra, mas sem a coisa", comenta.O problema é a estruturação da entidade, hostil ao grande pensamento. A deterioração, garante o geógrafo, é mundial mas, em outros países (europeus, principalmente), o intelectual encontra um respaldo na sociedade. O caminho, acredita, é desinstitucionalizar a universidade e privilegiar o real esforço aqueles que se entregam à tarefa da produção do conhecimento. Em toda sua carreira, Santos publicou mais de 40 livros e 300 artigos, além de ganhar o Vautrin Lud (1994), o mais importante da geografia mundial.

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