Futuro da Bienal do Mercosul é a "latinização"

A 3.ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, realizada até o dia 16, em Porto Alegre, ainda nem chegou ao fim e o presidente da próxima edição já tem nome: é Renato Malcon, do Banco Regional Malcon, que vai receber o cargo das mãos do atual presidente, Ivo Nesralla, até abril do ano que vem. Segundo Malcon, para a vaga de curador-geral da 4.ª Bienal do Mercosul, cargo no momento ocupado por Fábio Magalhães, já foram contatados Adriano Pedrosa, Nelson Aguillar, Daniela Bousso, Frederico Morais (curador da primeira edição), o argentino Jorge Glusberg e o uruguaio Angel Kalenberg. Tadeu Chiarelli e Jacob Klintowitz serão os próximos a serem visitados por Malcon. Segundo ele, que aponta o curador-geral, a decisão deve sair antes do fim deste ano. A quarta edição só ocorre em outubro de 2003, mas os trabalhos já começam no ano que vem. O presidente da 5.ª Bienal do Mercosul também já foi definido: Justo Werlang.Esta terceira edição do evento exibe mais de 400 obras de 125 artistas (68 brasileiros) de sete países da América Latina: Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Chile, Paraguai e, como nação convidada, Peru. Renato Malcon, falando ainda como vice-presidente da 3.ª Bienal, promete investir na "latinização" da mostra como forma de conquistar maior repercussão internacional. "Apostar na arte latino-americana será cada vez mais o nosso diferencial."Fazer da Bienal do Mercosul uma mostra internacional é um fantasma que paira sobre o evento, mas não parece ser essa a saída para uma maior inserção da arte latina nos mercados europeu e americano. A pesquisadora Leonor Amarante, especializada em arte contemporânea latino-americana, curadora-adjunta da segunda e também desta terceira edição, acha que o charme da Bienal do Mercosul está exatamente no fato de ser ela uma mostra regional, assim como a Manifesta, que reúne apenas artistas europeus. "Acredito que não há espaço no Brasil para duas grandes bienais de arte. Concorrer com a Bienal de São Paulo pode ser um grande desastre", diz ela. "Além do que, seria preciso um orçamento muito maior para realizar um evento de porte mundial." Para a curadora, uma opção viável seria ampliar o número de países convidados, incluindo nações da Europa e dos EUA.Durante um ano e meio, Leonor Amarante pesquisou e visitou ateliês em 14 Estados do Brasil - mais Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai - em busca de jovens artistas. Fábio Magalhães cuidou de Chile e Peru. Leonor e Magalhães, que também trabalham juntos no Memorial da América Latina, em São Paulo, receberam ainda subsídios de curadores estrangeiros para chegar à lista final. Como não existe no Brasil uma tradição de mapeamento da jovem arte contemporânea, poucas coletivas se dispõem a correr o risco de abrir o leque e sair em busca de novos nomes fora do eixo Rio-São Paulo. Entre elas estão o Panorama do MAM-SP, o Rumos Visuais do Itaú Cultural e a Bienal do Mercosul. O ganho é que o público tem contato com uma produção expandida, de maneira que pode confrontar os trabalhos e tirar as próprias conclusões.A maioria dos brasileiros não sabia - ou pelo menos ainda não tinha visto - que o Uruguai produzia arte contemporânea de boa qualidade. As grandes revelações uruguaias desta Bienal foram Marco Maggi, Martin Sastre, Fernando Cozzi e Carlos Peregrino. Para o bem e para o mal, o nomadismo continua a ser uma das marcas mais fortes da Bienal do Mercosul. A vantagem é que o evento tem o poder de revitalizar áreas urbanas abandonadas pelo governo e pela sociedade. Isso já ocorreu na segunda edição (1999), que forçou a cidade a voltar-se para a Usina do Gasômetro e o Cais do Porto. Neste ano, a mostra avançou pelas margens do Rio Guaíba, com intervenções urbanas e a construção da impressionante Cidade dos Contêineres, que espalha 60 módulos de metal pelas margens do Guaíba e ali expõe obras de arte contemporânea. Por outro lado, a Bienal do Mercosul continua sem uma sede fixa, um lugar que possa reunir informações e servir de referência para pesquisas sobre a mostra e seus artistas.Polêmica - A montagem do módulo Poéticas Pictóricas, no Santander Cultural, que promove um resgate da pintura contemporânea, foi muito criticada por expor grande quantidade de obras - um pouco espremidas - e colocar lado a lado propostas que não têm relação nem de conceito nem de forma. É o caso da aproximação entre os trabalhos do brasileiro Albano Afonso e da chilena Voluspa Jarpa, um de frente para o outro. Se os auto-retratos de Afonso questionam a representação e o olhar, Jarpa faz uma obra política, que coloca a imagem de um casal se beijando sobre uma bandeira do Chile, batizada Emblemas Históricos. A situação se repete no misterioso confronto entre o neopop do baiano Iuri Sarmento e as pinturas abstratas do paulistano Marco Giannotti. Segundo Leonor Amarante, a opção foi trabalhar com oposições, para que houvesse um estranhamento entre as obras. "Isso chama mais a atenção e valoriza os trabalhos, que crescem juntos. Quando duas obras "conversam" demais, ambas perdem a força", afirma Leonor. "A montagem de uma exposição é um jogo de quebra-cabeça e um grande desafio estabelecer analogias entre artistas tão díspares."Outro reparo a ser feito na montagem do Santander é a má aplicação das faixas de segurança no espaço expositivo. As linhas pretas de marcação interferem, às vezes de maneira drástica, na composição das obras. O problema fica evidente no trabalho de Alice Vinagre, artista da Paraíba que trabalhou com ripas de madeira recobertas de veludo, dispostas geometricamente no chão e parede, e também na obra da chilena Voluspa Jarpa, uma enorme bandeira do Chile, em feltro cinza, do teto ao chão.Didatismo - O grande desafio da Bienal do Mercosul, desde a primeira edição, tem sido enfrentar o abismo que separa a arte contemporânea brasileira dos demais países da América Latina. O Brasil, por questões históricas, tem uma produção regular mais desenvolvida que seus vizinhos, além de ser sede de uma das megaexposições mais importantes do mundo, a Bienal de São Paulo. Mesmo que Argentina e Uruguai consigam apresentar nesta Bienal do Mercosul alguns artistas de qualidade, são obras pontuais, que não representam um mercado em plena atividade como aqui. Fora do Brasil, a tendência de certa arte latino-americana que peca pelo excesso de didatismo e condescendência com o espectador é a tônica, principalmente em artistas da Bolívia e do Peru. Pode ser vista, por exemplo, em alguns trabalhos da Cidade dos Contêineres, como o da boliviana Patricia Mariaca (Las Que Planchan), que se vale da forma de um ferro de passar para criticar a condição da mulher. Cecília Mattos, do Uruguai, segue a linha "diários de artista", base para obras que na maioria das vezes se limitam à descrição de experiências pessoais. Na mesma trilha está Erika Ewel, da Bolívia, que critica o amor romântico e a idealização dos relacionamentos. O chileno Demian Schopff é outro artista que aposta na literalidade, desta vez de cunho político, em sua obra História Natural do Reino do Chile, uma exposição tétrica de animais embalsamados.Altos e baixos - A Bienal do Mercosul estaria condenada a refletir a situação da arte na América Latina, marcada pela falta de integração e por rupturas históricas? Para Leonor Amarante, a questão-chave é que não se pode ir contra a realidade da região. "Além do que, em uma mostra que é tão ampla e heterogênea, é natural que existam altos e baixos." A megaexposição ocorre simultaneamente em cinco espaços diferentes de Porto Alegre. O Parque Maurício Sirotsky é a sede da coqueluche da mostra, a Cidade dos Contêineres, com suas instalações, vídeos e fotografias, além das intervenções urbanas às margens do Rio Guaíba. O Santander Cultural é o lugar da pintura contemporânea. No prédio ao lado, o Memorial do Rio Grande do Sul homenageia o artista gaúcho Rafael França (1957-1991). Também no centro da cidade, o Margs (Museu de Arte do Rio Grande do Sul) recebe as mostras do mexicano Diego Rivera (1886-1957) e do norueguês Edvard Munch (1863-1944). A Usina do Gasômetro mostra sete representantes da arte contemporânea da China e o pintor dinamarquês Tal R. Visitantes - Até o fim da mostra, a organização espera receber 500 mil visitantes. A contagem já está próxima desse número, contudo o sistema não tem como controlar as repetições, ou seja, se uma mesma pessoa visitou apenas um ou todos os cinco espaços da Bienal. A 3.ª Bienal do Mercosul está orçada em R$ 4 milhões (sem contar as salas especiais e mostras paralelas), patrocinados por empresas como Grupo Gerdau, Petrobras, Grupo Ipiranga, Coca-Cola, OPP Química e Banco Santander. Em março, parte da exposição segue em itinerância para o Espaco Cultural do Itamaraty, em Brasília.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.