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Futebol e cosmologia

Impossível não pensar que o esporte moderno, aperfeiçoado numa Inglaterra protoindustrializada, tenha sido inspirado pelos modelos parlamentares republicanos nos quais a escolha religiosa e a competição política não conduziam à morte do adversário, mas era um direito a ser respeitado. Parlamentos eleitos e constituições revalidadas por todos num novo papel - o de cidadão e não mais de aldeão, plebeu ou aristocrata cortesão - são os exemplos para essas atividades igualmente agregadoras como os esportes nos quais o primeiro aprendizado é conhecer e aceitar as regras. Só que o estádio não serve mais para a decisão política que decidiria o destino de uma classe ou sociedade, de uma crença ou costume, mas para o gozo não utilitário de assistir a uma prova competitiva feroz, mas governada por normas e árbitros imparciais.

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2014 | 02h10

Um primeiro ponto pode então ser assentado. O esporte exprime um cosmo e o jogo, por mais errático que seja o seu resultado, segue rotinas. Tal como uma fábrica inglesa dos 1800, ele pode promover a vitória (lucros e produtividade) ou a derrota (vitória do competidor ou falência). Num outro plano, o esporte seria um instrumento de internalização de um tempo objetivo - uma duração quantificada e medida por um relógio. Uma temporalidade que não é feita pelas nossas atividades, mas que nos faz ou nos obriga a fazer certas coisas. Assim, o teatro, o cinema, as corridas de cavalo e todas as competições esportivas começam a ter um tempo para começar e terminar e usam o tempo como um limite de derrota ou vitória, já que nenhum time de futebol é vitorioso para sempre, mas apenas numa partida. Em outra, ele pode ter de enfrentar o peso da derrota.

Essa concretização do tempo que pode ser de trabalho ou lazer; e pode ser comprado ou poupado, mas não deve ser desperdiçado, é algo patente nos esportes modernos e no futebol, que amamos e praticamos com maestria. A modernidade transforma o tempo num jogador cuja atuação pode ser decisiva para o resultado de um jogo. Neste sentido, ele pode ser mais importante do que um jogador.

Numa disputa de Copa do Mundo, o tempo é tão sacralizado quanto o de um ritual religioso, digamos - sem pretender ofender suscetibilidades -, de uma missa cantada. E tal como na missa, o campo de futebol com suas linhas e círculos, reproduz na esfera do entretenimento esperanças, coragem, fé, confiança, generosidade, aplicação, disciplina, força de vontade, egoísmo e altruísmo. Todos esses elementos constitutivos do sagrado. Esse sagrado que Durkheim definia como sendo removido do ordinário e do profano.

A mais óbvia separação ocorre entre espectadores e jogadores. Os primeiros são profanos e desmarcados; os segundos são marcados e separados: são os que jogam e, como os antigos gladiadores, podem morrer. Estão interditados e circulam numa área-tabu, semelhante à do padre no altar. Nela, o goleiro é o que guarda o sacrário ou o gol que o representa como o relicário que, se ficar intocado ou virgem, vai produzir a vitória de um conjunto de pessoas intermediárias: jornalistas e personagens que fazem parte das margens do ritual.

Mas notem que tal como o sagrado é dos atores e o profano do torcedores, essa mesma segmentação é refeita no próprio jogo e faz parte de sua estrutura. Temos, assim, o "nosso time" - sagrado para nós, mas profano relativamente ao time adversário.

Ninguém pode eliminar essa oposição entre "nós e eles", que tanto perturba o mundo real. Pelo contrário, há incentivos para o combate de um lado e do outro, o que remete ao dualismo perpétuo do Bem contra o Mal. Sem isso, simplesmente não haveria movimento, jogo e significado.

O futebol é um rompimento controlado com a paz a qual e uma licença uma guerra na qual os dois "exércitos" usam apenas uma bala: a bola, que é de todos e não é de ninguém. A "bola móbile" que segue quem a controla a possui com mais competência. Empurrada no sacrossanto espaço do adversário, a bola - como uma hóstia ao contrário - santifica o doador dando-lhe pontos: uma proximidade do céu.

A metade de um campo de futebol é estruturalmente idêntica à metade de um templo cristão, inclusive com suas marcações retangulares. Neste esquema, quanto menor a demarcação, maior o perigo e a sacralização. Como sugeri, o sacrário é o gol que, com sua rede, se torna uma porta invertida, aberta para dentro. Se o beisebol jogado na América estadunidense dramatiza o "home-run" (a corrida para a fronteira e para casa), que o individualismo americano tanto equaciona ao sucesso, pois sair e voltar da base triunfante é o "êxito", o nosso futebol simboliza a luta do Bem contra o Mal em toda a sua agonia.

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