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Roberto DaMatta
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Futebol e Brasil

Por que o Brasil não pode ser como o futebol? Por que a “política brasileira” não vence para o Brasil, mas só para si mesma, sendo, por contraste com o futebol, um lixo?

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

06 Junho 2018 | 02h00

No futebol somos vencedores mundiais e produtores de jogadores disputados por clubes “lá de fora”, mas o nosso Brasil, reduzido ao seu mundo “político-partidário”, é símbolo de derrota, vergonha e escárnio. Imagine o melhor jogador de futebol que você conhece – um Garrincha, Pelé, Zico, Gerson, Ronaldinho ou Neymar – na cadeia por ter fraudado um jogo do Brasil numa Copa!

De um lado, craques; do outro, na administração pública (com vênia aos honestos), pernas de pau! De um lado, atores que, com o seu talento, transformam para melhor papéis fixos; do outro, gente que desonra os papéis cruciais que ocupam. Se a “política” – esse jogo sujo cujas consequências inafiançáveis estamos vivendo – fosse o futebol, seríamos o lanterninha do mundo. 

Mas, eis o motivo dessa linhas, escritas depois de ver Brasil x Croácia, o futebol, por contraste brutal com a política, não envergonha o Brasil. Pelo contrário, ele é motivo de orgulho. Na política, choramos de ignomínia – malas transbordantes de dinheiro no apartamento de um óbvio bandoleiro de boa família com trânsito à esquerda e à direita bis altos escalões governamentais –, no futebol mal podemos conter as lágrimas de orgulho quando o Brasil ganha uma partida. Todos sabemos – coisa rara na política – contra quem estamos jogando! 

Acabo de assistir a uma competição representativa de um mercado autorregulado e, no entanto, não testemunho nenhuma impostura. Não ouço nem promessas messiânicas de que o “nosso partido”, por ser do “povo” não podia errar e iria acabar com a corrupção. No futebol, entretanto, o que assisto não é um teatro de roubalheiras, mas uma demonstração de talento, beleza e verdade. O futebol me transporta para o Brasil dos competentes e dos verdadeiros.

Vejo uma disputa férrea, mas não vejo vileza ou radicalismo. Nenhum jogador fere mortalmente um outro e deseja a sua destruição. Sabemos que entre aqueles profissionais não há inocentes. Mas eles sabem que a refrega tem regras conhecidas e, por causa disso, todos obedecem aos árbitros, contrariando os seus desejos de vitória a qualquer preço. No futebol, eis o milagre!, não há recursos jurídicos para os que são justamente derrotados. Vencer ou perder é parte do jogo e ninguém pode transformar a derrota em opróbrio, nem ser vítima ou dono da bola para sempre.

Nesse mundo de guerras de destruição total que tanto nos envergonham – eu vejo no futebol o renascimento da justiça. Nele, nos aproximamos do ideal que define o vencedor como o melhor e o mais competente. Não há heróis que matam e morrem em nome da pátria ou da religião. Há apenas um punhado de craques. Nesse domingo eu me orgulho desses craques que com seu talento lutam contra seus adversários e as vicissitudes do acaso num combate no qual vale o talento e não a cor da pele, o berço, a nacionalidade ou a força bruta. Quem sabe se Deus não é mesmo brasileiro?

Essa abertura ao talento (ou dom) faz com que o esporte seja uma esfera social tão importante num mundo tão desequilibrado. 

Outro dia me perguntaram se o amor pelo verde-amarelo não estaria desmaiado. Respondi que seria preciso esperar pelo jogo. É na luta feroz que não deixa mortos e na qual a bola é a vida e corre mais do que os homens, conforme escrevi num livro com esse título faz algum tempo, que mexe o meu coração.

No fundo, imagino, o futebol revela o fracasso ou o sucesso como estados relativos porque – antes de mais nada – é preciso jogar, como é preciso cantar e viver.

Sobretudo para nós que sabemos como o futebol rejeita tanto o populismo dos despotismos quanto os radicalismos, justamente porque nele o outro não é um inimigo a ser destruído, mas um adversário a ser respeitado, já que sem ele não há jogo.

Por isso, o futebol é tudo aquilo que a “política” não é. Nele, os times não são as pessoas. Ninguém nasce craque, mas torna-se um craque. O futebol, o oposto do sistema brasileiro, não tem privilégios. Como afirmei muitas vezes, há nele uma igualdade de raiz que causa alergia no Brasil. Num jogo de futebol, vive-se a experiência da democracia em estado puro. Ganhamos somente para perder e perdemos para ganhar. 

Pode-se aparelhar um selecionado brasileiro? Podem-se convocar jogadores somente por ideologia, amizade ou parentesco? 

De modo algum. O futebol veio a se institucionalizar no Brasil porque ele pode ser censurável na sua organização, mas não no campo no qual surge transparente, impondo o seu valor aos jogadores, juízes, técnicos, dirigentes e torcedores. Ou seja, o time fica, mas os jogadores passam. Viva o time! Aí está o fundamento do que se chama institucionalizar. Aliás, cabe perguntar: é o futebol quem nos joga ou somos nós que o jogamos?

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