Furor na Broadway

A ópera-rock American Idiot retrata o mal-estar juvenil dos anos Bush

Charles Isherwood, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

Em American Idiot, o emocionante, estridente e maravilho musical da Broadway adaptado a partir do álbum de grande sucesso dos astros do punk pop Green Day, fúria e amor, essas emoções que tanto consomem os jovens em particular, praticamente incendeiam o palco. A ponto de receber três indicações para o prêmio Tony, incluindo de melhor espetáculo. Na Broadway, o pop não causa tanto estranhamento. Mas e o punk? Pois ei-lo aqui, servido com todas as suas principais características, das letras irônicas aos vigorosos riffs de guitarra. Um velho edifício a poucos passos dos turistas que lotam Times Square pode parecer lugar estranho para a música do Green Day, e para uma peça de teatro tão direta, ousada e agressiva. Para não falar no altíssimo volume. Mas quando a cortina sobe, revelando um conjunto de jovens no venerável teatro St. James, torna-se claro que esses garotos ficarão à vontade como se estivessem em seus lares, mesmo que para isso tenham que pôr o lugar abaixo. E, metaforicamente, é o que fazem.

American Idiot, dirigido por Michael Mayer e interpretado por excelente elenco, detona um poderoso ataque estético nesta mediana temporada da Broadway. Retrato vibrante da juventude desperdiçada que invoca todas as convenções básicas do gênero (vamos ao sexo, drogas e rock"n"roll, por favor!), só para transcendê-las com o poder de sua música e a arte de sua execução. Os jovens aos quais somos apresentados nos primeiros minutos de American Idiot são imaturos, emburrados e inquietos demais para serem capazes de canalizar suas emoções de maneira construtiva.

O espetáculo começa com um glorioso ataque de mau humor de 20 minutos detonado pela canção-título. "Não quero ser um idiota americano!", grita um dos membros do grupo. O conhecido riff de guitarra da canção corta o ar, ecoando o desafio lançado pelo grito. Uma habilidosa banda de oito instrumentistas, regida por Carmel Dean, fica disposta ao redor do palco, fazendo moldura musical para aquilo que acontece em cena. A cenografia simples e espetacular de Christine Jones evoca um clube de mergulho em escala épica, com as gigantescas paredes cobertas de cartazes de bandas punk e pontilhadas com telas de TV.

Quem é o idiota americano a quem o espetáculo se refere? Bem, quando a cortina sobe lentamente, ouvimos a familiar voz de George W. Bush rompendo a cacofonia produzida pela TV: "Ou vocês estão conosco ou estão com os terroristas." Esse tipo de discurso poderia transformar qualquer jovem num rebelde incorrigível, especialmente no caso de um jovem que já sente coceiras diante das perspectivas proporcionadas por sua melancólica cidadezinha suburbana.

Autodescoberta. Mas apesar de American Idiot ser um retrato do mal-estar juvenil de uma época específica (o CD foi lançado em 2004, ponto intermediário dos anos Bush, e o espetáculo se passa no "passado recente"), sua imagem da crise pós-adolescência é válida para qualquer período. Talvez adolescentes ansiosos pelo começo de suas vida, desesperados para se desfazer de seus antigos "eus" e escapar do tédio por meio da sensação pura cometerão sempre o mesmo tipo de erros, fazendo as mesmas escolhas equivocadas na sua estrada rumo à autodescoberta.

Trata-se de uma ópera-rock, que se vale de músicas do Green Day e das letras de seu vocalista de olhos maquiados, Billie Joe Armstrong, para contar sua história. O libreto de Armstrong e Mayer traz mensagens breves e sarcásticas enviadas ao lar pelo protagonista Johnny, interpretado pelo talentoso John Gallagher Jr. "Assaltei o mercado do meu bairro para conseguir o dinheiro da passagem de ônibus", diz Johnny com um sorriso irônico enquanto ele e um amigo saem da cidade. "Na verdade, roubei o dinheiro da penteadeira de minha mãe." Pausa. "Na verdade, ela me emprestou o dinheiro."

É esse o destino constrangedor dos aspirantes a rebeldes contemporâneos. Mas ao menos Johnny e seu amigo Tunny (Stark Sands) conseguem escapar dos mortíferos subúrbios e chegam à cidade agitada, trazendo consigo apenas suas guitarras e a apatia que são o pão com manteiga das atitudes adolescentes em todo o mundo. ("Não me importo que você não se importe", um verso exemplar, poderia ser o lema deles.) Sob as bravatas da indiferença estão a ansiedade, o medo e a insegurança, que Gallagher, Esper e Sands transmitem com dolorosa clareza nas canções mais introspectivas do espetáculo, como o sucesso Boulevard of Broken Dreams e o animado hino Are We the Waiting.

A cidade revela-se nada mais do que uma versão ampliada do lugar que Johnny e Tunny deixaram para trás, e "uma terra de faz de conta que não acredita em mim". Os meninos descobrem que, apesar dos fragmentados Estados Unidos do século 21, o problema mais profundo está no fato de eles não saberem como acreditar em si mesmos. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Números

Vinte minutos dura o "ataque" inicial, detonado pela canção-título

64 mil

pessoas viram as primeiras 24 apresentações do espetáculo

3 indicações

recebeu para o prêmio Tony, incluindo o de melhor musical

45 milhões

de dólares foram arrecadados

Rebeldes incorrigíveis

PETER TRAVERS

DA ROLLING STONE

"Você não vai saber o que te bateu. American Idiot não conhece limites - é um nocaute global."

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