Furacão de ideias na casa-grande

Publicação de um inédito, reedições de clássicos e simpósios no Brasil e em Portugal colocam em debate a produção de Gilberto Freyre, apontado como seguidor de teses antissemitas e racistas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2010 | 00h00

Grande homenageado da oitava edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa dia 4 de agosto, o sociólogo e antropólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) volta ao papel de incendiário das ciências sociais não só pelas discussões que vai provocar na cidade fluminense como no exterior - Portugal sedia em março de 2011 um colóquio com especialistas internacionais em sua obra (entre eles o historiador inglês Peter Burke). Além disso, estão programados o lançamento de um livro inédito (De Menino a Homem, segunda parte de suas memórias, pronto para sair pela Global) e o retorno às livrarias de títulos há muito fora de circulação, destacando-se o projeto da editora É Realizações, que no ano passado publicou dois volumes do mestre de Apipucos, Sociologia (Introdução ao Estudo dos Seus Princípios) e Sociologia da Medicina. A nova editora coloca agora mais sete títulos no pacote que será lançado na época da Flip, entre eles O Mundo Que o Português Criou, resultado de uma série de conferências feitas em 1937 no King"s College (Universidade de Londres) e em três universidades portuguesas.

Como Freyre é sinônimo de polêmica, parece inevitável que um dos títulos lançados aborde um tema incômodo como o de Tempos de Casa-Grande (Editora Perspectiva), tese de doutorado da historiadora alagoana Silvia Cortez Silva. Nele, a professora, residente no Recife, acusa o escritor de racista e antissemita, definindo-o como criador do maior mito da sociologia brasileira, o da democracia racial. Segundo ela, trata-se, antes de tudo, de "um mito político, que oferecia uma solução para o problema racial" evidenciado nos anos 1930 com as catastróficas teses eugênicas que pipocavam na época. Freyre, defende a professora, prometia à posteridade "uma modernidade bem atenuada, produto de uma mestiçagem eugênica", um mito do futuro de "nítido contorno soreliano" segundo ela.

Por "soreliano" entenda-se a referência ao marxista francês Georges Eugène Sorel (1847-1922), teórico do sindicalismo que acreditava no mito como força capaz de levar pessoas a agir em prol do triunfo de uma causa - no caso, o mito da democracia racial, "embasado numa linguagem envolvente, mas falaciosa", de acordo com a autora da tese, que esperou 15 anos para ver seu trabalho publicado, prefaciado por Arnaldo Bloch. Até mesmo o primeiro prefaciador, um nome que ela mantém em segredo, desistiu no meio do caminho, temendo represálias dos freyrianos defensores do mestre em Pernambuco. A espera compensou, avalia a historiadora. Nesse intervalo, um exame de DNA de familiares de Gilberto Freyre, conduzido pelo cientista mineiro Sergio Danilo Pena, teria revelado que o sociólogo descendia de judeus sefarditas portugueses que migraram para o Brasil.

Arnaldo Bloch, irônico, diz que foi uma sorte terem os antepassados de Freyre escapado das fogueiras dos autos de fé, mas morreriam de vergonha se vissem o retrato do judeu pintado pelo descendente: "técnico da usura", "ave de rapina" e "parasita" são alguns dos termos empregados na terminologia antissemita relacionada pela professora Silvia - e que ocupa duas páginas de seu livro.

Nelas, três obras aparecem com mais frequência entre as que abusam dessas expressões depreciativas contra os judeus: Tempo de Aprendiz (1921), Casa-Grande & Senzala (1933) e Sobrados e Mucambos (1936). Um ano depois da publicação do último, as críticas são amenizadas e substituídas por outro discurso. Em O Mundo Que o Português Criou, Freyre ressalta os judeus "de alta expressão intelectual" que regressaram à Europa ou migraram para outros países do continente americano quando os católicos portugueses reconquistaram o Nordeste, citando nominalmente alguns que ajudaram a desenvolver no plano intelectual aquela região, que só conhecia, quando muito, a cultura do açúcar.

O editor da É Realizações destaca o livro entre os muitos que pretende publicar sobre Freyre ainda este ano. Ex-ator e diretor de teatro, aluno do polonês Jerzy Grotowski (1933-1999) e do italiano Eugenio Barba, o agora editor Edson Manoel de Oliveira Filho, como cristão novo descendente de portugueses, prefere ficar longe da polêmica do antissemitismo de Freyre, concentrando seus esforços nos títulos que tratam das relações entre brasileiros e portugueses. Assim, além de O Mundo Que o Português Criou, vai publicar Aventura e Rotina, Um Brasileiro em Terras Portuguesas, O Luso e o Trópico e Uma Cultura Ameaçada e Outros Ensaios. E, como o sociólogo era um homem com crítica visão das artes e pioneiro na engenharia social, mais dois títulos foram escolhidos pelo editor: Vida, Forma e Cor e Homens, Engenharias e Rumos Sociais. Detalhe: todos os livros publicados sem lei de incentivo fiscal. Edson Manoel é o que convencionalmente se chama de mecenas. "Encaro o projeto Gilberto Freyre como uma missão, pois não faz sentido um livro fundamental como Sociologia estar há 37 anos fora de catálogo", justifica o editor.

Cuidado. Freyre seduziu igualmente a historiadora e professora Maria Lúcia Pallares-Burke, casada com o também historiador Peter Burke. Autora de Um Vitoriano nos Trópicos (2005), estudo sobre a formação do sociólogo, ela lançou no ano passado o livro Repensando os Trópicos (Unesp), retrato intelectual do autor de Casa-Grande & Senzala escrito em parceria com o marido. Da Inglaterra, a professora, que organizou as mesas de debates sobre Freyre na Flip - que terão, entre outras estrelas, Fernando Henrique Cardoso e o escritor Moacyr Scliar -, falou ao Sabático sobre a obra do sociólogo, comentando as acusações de antissemitismo que pesam sobre ele.

"É preciso ler Gilberto Freyre com cuidado", recomenda, lembrando que a linguagem de Casa-Grande & Senzala é condicionada por expressões da época que assumem diferente dimensão quando retiradas de seu contexto. "Nunca fiz um estudo aprofundado sobre seu suposto antissemitismo, mas lembro que ele destaca o papel dos judeus de uma forma positiva na formação do Brasil." Já sobre os portugueses, ela nota que seu discurso muda como mudou sua posição francamente racista ao se reinventar e fazer o elogio da mestiçagem em Casa-Grande & Senzala, de 1933. "É chocante como, ao voltar dos EUA, ele elogia o grande líder da Ku Klux Klan e defende a supremacia branca nos anos 1920, para, em 1933, falar da missão civilizadora do negro no Brasil, o que indica uma revisão de seus preconceitos."

Não é o que pensa a historiadora Silvia Cortez Silva: "A senzala de Freyre é idealizada." Ela identifica em outra obra além de Casa-Grande & Senzala uma "visão de mundo excludente" que em tudo contraria a sua "democracia racial": em O Escravo nos Anúncios de Jornais Brasileiros (leia abaixo texto sobre o livro), Freyre teria tecido, com a ajuda da eugenia, uma cortina que "veladamente, encobriria nosso passado". A acomodação entre a casa-grande e a senzala não passaria, segundo ela, de um fruto dos "devaneios freyrianos". O que a historiografia registra, argumenta, foi uma acomodação "na base do chicote, sevícias e o olhar vigilante do dominador sobre o outro, sua propriedade, seu objeto". Se Freyre defendeu o processo de miscigenação, por outro lado se revelou um antissemita, acusa, especialmente de 1921 a 1936. E - por que não? - também depois. A professora lembra que, durante sua vida, inúmeros prefácios foram escritos ou reescritos por Freyre para Casa Grande & Senzala e que o sociólogo "jamais registrou" - nem em uma nota sequer - mudança de opinião sobre os judeus.

O problema antropológico e sociológico da mestiçagem, por ser uma questão transnacional, ocupa, porém, mais páginas na obra-prima de Freyre justamente pelo interesse do sociólogo em nosso passado comum de luso-descendentes, uma vez que, como ele mesmo argumenta em O Mundo Que o Português Criou, a atração do Brasil sobre os judeus da Europa durou "até que outras partes da América lhes pareceram mais hospitaleiras ou mais liberais, mais atraentes para os seus capitais e para a sua atividade de intermediários".

"Freyre também fez críticas ofensivas aos portugueses, lembrando que muitos escravos negros, dependendo de sua origem, estavam bem acima da média do colonizador, o que é um discurso revolucionário para a sua época, uma mudança de padrão para o pensamento historiográfico, não só brasileiro como estrangeiro", conclui a historiadora Maria Lúcia Pallares-Burke, dizendo que Freyre foi também pioneiro ao falar de ecologia e hibridismo cultural antes dessas palavras entrarem na moda.

VISÃO GLOBAL

Amigo e estudioso de Gilberto Freyre, o pernambucano Edson Nery da Fonseca - que debaterá na Flip o talento literário do sociólogo - diz que Silvia Cortez Silva tira frases do contexto para defender a tese de antissemitismo. Após citar trecho de Casa-Grande & Senzala no qual Freyre tanto chama os judeus de "técnicos da usura" quanto destaca a "superioridade de sua cultura intelectual e científica", Nery conclui: "Ele não era anticoisa nenhuma, só buscava ver o mundo de maneira global."

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