Fundadora retoma história do Filo

Ela não reparou. Estava entretida com a conversa e não viu que, ali do lado, alguém pendurava quadros. Nitis Jacon está sentada em uma mesa, na sede do Festival de Londrina. Pouco mais de um metro atrás de sua cadeira, um homem ajeita fotografias de Kazuo Ohno na parede.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

É como se, involuntariamente, ilustrasse o que ela acabava de contar: a passagem do mestre do butô pela cidade em 1992, as mais de 15 vezes em que ele teve que voltar ao palco para agradecer os aplausos, o dia em que Kazuo parou na calçada e se pôs a dançar com meninos de rua.

Assim será durante toda a entrevista. Aos 74 anos, Nitis emenda uma história na outra. Costura sem intervalo os assuntos. Conhece todas as minúcias do festival que ajudou a criar em 1968 e fez dessas lembranças a matéria de Memória e Recordação, livro que lança nesta edição do Filo (Festival Internacional de Londrina).

No volume, revê 40 anos do evento paranaense, o mais antigo do gênero do País. Passeia por todos os entraves e as glórias das últimas décadas, mas faz tudo isso de uma perspectiva muito particular: a sua. "Gostem ou não, sou a protagonista dessa história", diz a autora, que ocupou o posto de presidente do festival durante décadas.

Catálogos, fotografias, recortes de jornais. O Filo teve a preocupação de registrar o próprio percurso, lembra o prefácio de Mariangela Alves de Lima, crítica e colaboradora de teatro do Estado.

De dentro. Para escrever, Nitis Jacon valeu-se de fontes documentais, arriscou contextualizações, mas amarrou tudo com a corda das próprias impressões e lembranças.

"Existia muito arquivo, material. Queria fazer algo documental, mas que não ficasse muito chato. Além disso, não poderia me excluir. O festival foi um projeto de vida para mim", diz ela, que passou boa parte dos últimos anos conciliando a carreira de médica psiquiatra às funções de curadora de festival internacional e diretora de teatro.

Basta um estalo, e lá está Nitis de volta a driblar os censores da ditadura, a acomodar os grupos em uma quadra improvisada, a negociar com Eugenio Barba, o grande diretor do Odin Teatret, sua vinda para o Brasil.

O livro retoma todos esses episódios. Revela como Londrina abriu as fronteiras do País para a entrada das primeiras companhias latino-americanas, e mostra as dificuldades que o festival teve que atravessar para sobreviver: primeiro com a repressão política; depois, com a falta de dinheiro. "O Filo não é só um evento", ela lembra. "O importante é não perder a consciência do processo que se criou."

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