Fundação municipal terá três diretores

Secretaria altera formato anunciado em novembro do ano passado

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2010 | 00h00

O cancelamento dos concertos resgata um antigo fantasma da história do Teatro Municipal. Cerca de 80% dos músicos da Sinfônica Municipal têm contratos provisórios de trabalhos, que precisam ser renovados periodicamente - a criação da fundação, aliás, tem como um dos objetivos resolver essa questão. Para que os contratos sejam feitos, no entanto, é preciso discriminar os concertos e obras dos quais os artistas vão participar. "Se os concertos são cancelados, não há contrato e, portanto, mais de 80% da orquestra perde o vínculo e ela deixa de existir propriamente dita. Tenho colegas que estão desesperados com essa possibilidade", diz um experiente integrante da orquestra, que pediu para não ser identificado.

A Secretaria Municipal de Cultura, em resposta enviada por e-mail, diz que "os contratos serão renovados normalmente, mas a retomada dos concertos depende da manifestação do conjunto da Sinfônica Municipal no sentido de colaborar com o maestro interino e a programação por ele proposta". Representantes dos músicos ouvidos pelo Estado garantem que a orquestra está disposta a cumprir a programação, mesmo que sob a direção de Rodrigo de Carvalho, "antes que uma opção seja encontrada". Na segunda-feira, porém, funcionários do Municipal informaram que tanto Carvalho quanto a diretora-geral Beatriz Amaral estavam em férias a partir daquele dia, retornando apenas em um mês.

Ainda sobre a polêmica envolvendo o nome de Carvalho, a Secretaria afirma que ele "nunca foi regente titular da Sinfônica Municipal". "É seu interino." Mesmo que o material de divulgação da temporada da orquestra no Auditório Ibirapuera, que está servindo de palco para o grupo durante a reforma do teatro, o apresente como regente titular, a mensagem da Secretaria informa que "a intenção era a de aguardar a criação da fundação e só então definir o regente titular de sua orquestra". "A manifestação dos músicos precipitou o processo e a Secretaria de Cultura pretende convidar maestros para regerem o conjunto."

A permanência ou não de Carvalho, porém, parece ser apenas um aspecto de uma discussão maior, que envolve a programação durante o período da reforma do palco e a transformação do Teatro Municipal em uma fundação de direito público, que está em discussão na Câmara Municipal. "Estamos nos sentindo perdidos e vendo a qualidade do trabalho se perder", diz uma representante do Coral Lírico Municipal, um dos corpos estáveis do teatro. "Sabemos que podemos fazer melhor do que isso, mas estamos sem interlocutor dentro do teatro. Ouvimos falar de uma programação sendo montada para 2011, quando o teatro completa 100 anos, mas o que sabemos é pela imprensa", diz, corroborando informações dadas por membros de outros grupos da casa, como o Balé da Cidade e a Orquestra Experimental de Repertório.

Críticas. A questão que os músicos colocam é a ausência de um diretor artístico no projeto da fundação, que teria apenas um diretor-geral e um conselho de programação. O formato vem sendo criticado também por personalidades do mundo musical. O maestro John Neschling, por exemplo, escreveu em seu blog, o Semibreves: "É sabido no meio musical que se deseja que o Teatro Municipal seja dirigido por uma comissão artística. Não conheço nenhum teatro no mundo que seja dirigido artisticamente por uma comissão. No Brasil, onde até políticos e editores se metem a programar temporadas musicais, uma solução como essa não é novidade. Na minha opinião, trata-se de uma guerra anunciada e de um desastre com hora marcada. Se isso virar lei, o Teatro Municipal estará condenado a uma mediocridade eterna (mediocridade no sentido literal de qualidade da média), até que essa lei seja revogada, o que sabemos pode levar décadas", escreveu. E completou: "A falta de uma direção artística no nosso teatro lírico acaba por permitir erros desse quilate: uma orquestra, há muito tempo sem projeto e com concertos esparsos aqui e ali, terá como primeiro desafio do ano que vem tocar uma partitura dificílima, só enfrentada habitualmente por orquestras com muitos anos de trabalho constante e profundo, que já vem tocando sistematicamente todo o repertório clássico, romântico e pós-romântico", pontuou, fazendo referência ao anúncio de Lulu, de Alban Berg, como um dos títulos previstos para a temporada de 2011, que teria ainda a presença dos pianistas Nelson Freire, Maria João Pires e Martha Argerich.

Direções. As declarações do maestro Neschling não receberam resposta oficial por parte da Prefeitura, mas o Estado teve acesso a uma carta enviada a ele pela diretora do Municipal, Beatriz Amaral, que dá pistas sobre como será desenvolvida a direção artística da fundação. "Explico ao maestro que o projeto é de uma fundação pública e não privada e prevê um diretor musical, um diretor de dança e um diretor de formação: são esses profissionais que se responsabilizarão por elaborar a programação. E, enquanto a fundação não se instala, há uma comissão especial constituída por profissionais de comprovada competência que se responsabiliza pela programação a ser desenvolvida em 2011", diz a carta. Os artistas do teatro, porém, insistem que não estão sendo consultados sobre os planos.

A presença de um diretor musical, um diretor de dança e um diretor de formação contraria a nota oficial enviada à imprensa pela Secretaria Municipal de Cultura quando o maestro Jamil Maluf deixou o posto de diretor artístico do Municipal, em novembro de 2009. Explicando que a saída de Maluf tinha como objetivo facilitar a transição para o novo modelo de gestão, a nota dizia que, quando da instalação da fundação, "será criado um Conselho de Orientação Artística composto pela diretora do teatro, Beatriz Franco do Amaral; pela diretora do Balé da Cidade, Mônica Mion; pelo regente da Sinfônica Municipal, Rodrigo de Carvalho; pelo regente da Experimental de Repertório, Jamil Maluf; por um representante do Quarteto de Cordas; pelo regente do Coral Lírico, Mário Zaccaro; pelo regente do Coral Paulistano, Tiago Pinheiro; e pelos diretores das escolas de dança e música do município, Esmeralda Penha Gazal e Henrique Gregori".

Questionada sobre a questão, a Secretaria diz que "não conhecemos manifestações contrárias ao formato proposto". "O Teatro Municipal é composto de corpos artísticos (duas orquestras, dois coros, um balé e um quarteto), mas também de duas escolas profissionalizantes e de uma central de produção. A recente experiência mostrou que um diretor artístico não tem condições de coordenar todas essas atividades, e por esse motivo se propõe na futura fundação a figura de um diretor musical." A nota diz ainda que, ao contrário do que foi vinculado na imprensa, a reforma do palco será concluída em janeiro de 2011.

UMA HISTÓRIA DE POLÊMICAS

Julho de 1991

A associação que representava os músicos do Municipal procura a então prefeita Luiza Erundina para questionar decisões da administração do diretor Emílio Khalil, que é acusado de má gestão e autoritarismo, além de negligenciar os artistas dos corpos estáveis do teatro na programação dos 80 anos da casa.

Abril de 1994

Os artistas ameaçam entrar em greve por conta de baixos salários. A decisão se deu após os músicos questionarem o salário do então diretor Isaac Karabtchevsky. O inimigo virou aliado e, depois de uma reunião do maestro com o secretário municipal de Administração, foi enviada à Câmara proposta para aumentar os salários de

US$ 300 para US$ 800.

Fevereiro de 1999

O então secretário municipal de Cultura, Rodolfo Konder, publica no Diário Oficial a nomeação de uma comissão para transformar o Teatro Municipal de São Paulo em uma fundação. A comissão teve 60 dias para apresentar seu estudo. O projeto jamais saiu do papel.

Dezembro de 2004

Cerca de 120 músicos, cantores e bailarinos da Orquestra Sinfônica Municipal, dos corais Lírico e Paulistano e do Balé da Cidade fizeram manifestação no centro reivindicando pagamento de salários e renovação de contratos. A passeata começou na sede da Prefeitura (foto), passou pelo Teatro Municipal e acabou no plenário da Câmara dos Vereadores, onde cantaram o Aleluia de Haendel e receberam a promessa, por parte da Secretaria de Cultura, de que os salários seriam depositados.

Versões

MÚSICO DO TEATRO MUNICIPAL

MEMBRO DO CORAL LÍRICO

"Estamos nos sentindo perdidos e percebendo a qualidade do nosso trabalho se perder"

RODRIGO DE CARVALHO

MAESTRO

"O que fiz foi imprimir à orquestra padrões mínimos de qualquer gestão pública"

SECRETARIA DE CULTURA

EM NOTA OFICIAL

"Não conhecemos manifestações contrárias ao formato de fundação proposto"

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