Fundação Joaquim Nabuco corta gastos

Instituição com o maior número de cargos comissionados do Ministério da Educação (MEC), a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) extinguiu 44 do total de 186 desses cargos, além de ter enxugado também sua estrutura: acabou com duas superintendências - Instituto de Tropicologia e Instituto de Estudos da Amazônia - e pôs fim à representação da fundação em Brasília. As mudanças foram realizadas por determinação do MEC ainda antes da posse do novo presidente da autarquia, Fernando Lyra, nomeado pelo ministro Cristovam Buarque com a missão de sintonizar a instituição com as metas do governo Lula, fazer a fundação trabalhar em projetos executáveis e com resultados para a população, no sentido de estender o acesso à cultura e combater a fome e a pobreza. Para Lyra, os cortes não vão impedir o bom funcionamento da fundação. Ele concorda com o argumento do MEC da ausência de necessidade da representação de Brasília como intermediadora entre a fundação e o ministério. A representação tinha um escritório com três salas e cinco funcionários - incluindo motorista e um cargo comissionado. Já o Museu do Homem do Norte, que pertencia à superintendência da Amazônia, estava fechado havia seis anos. Ele explicou o acúmulo de cargos comissionados com a falta de concurso público, o que levou funcionários da casa a ocuparem cargos gratificados que se transformaram em cargos efetivos. Depois que assumiu a fundação, em 17 de fevereiro, Lyra substituiu os superintendentes de todos os institutos do órgão, alguns com 20 anos no cargo. Os que são funcionários continuam na casa, apenas em outra função. É o caso de Silvana Meirelles, que dirigia o Instituto de Cultura e venceu, pela fundação, o Prêmio Multicultural Estadão do ano passado, por estímulo às artes e à cultura. Lyra garante que tudo o que vinha dando certo será mantido e ampliado. "Silvana fez um bom trabalho que agora pretendemos estender, interiorizando a cultura, estimulando a potencialidade cultural da região", afirmou ele. A idéia, segundo o superintendente, é criar uma espécie de SUS (Sistema Único da Saúde) da cultura, com acesso mais amplo. Desafio - Lyra destacou a necessidade de conectar todos os cinco institutos da Fundaj (cultura, escola de governo, documentação, pesquisas sociais e planejamento), que funcionavam de forma isolada, autônoma, para enfrentar o desafio de ajudar a realizar a "segunda abolição", expressão do ministro Buarque que se refere ao fim da escravidão da pobreza, cujo maior instrumento de luta é a educação. Dentro das suas novas funções, a Fundaj vai coordenar a elaboração do programa Crianças Fora da Rua, que pretende retirar das ruas as crianças da região metropolitana em um prazo de dois anos. O programa terá o apoio do governo estadual, prefeituras, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e entidades não-governamentais. Fernando Lyra frisou que, apesar da falta de um objetivo claro, de uma estratégia de trabalho comum na instituição, o seu corpo técnico é tão valoroso que se mantinha de certa forma sintonizado. Exemplo é a realização, em abril, de um seminário internacional sobre pobreza. "Dá a impressão que nós armamos, mas já estava tudo planejado." Ele considera natural a resistência interna que vem enfrentando por parte de parcela dos funcionários, o que, na sua avaliação, tem a ver com a queda do ex-presidente, Fernando Freyre, filho do fundador da Fundaj, o sociólogo e escritor Gilberto Freyre. Ele ficou quase 32 anos no cargo. "Por mais que se tenha consciência de que se trata de uma entidade pública, o tempo faz esquecer isso", observou. "De gestor se transforma em proprietário."

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