Funarte deve publicar obra completa

A visita dos pesquisadores responsáveis pela exposição do Memorial da América Latina provocou uma dor involuntária na jornalista Vera Artaxo, última companheira de Plínio Marcos. "Foi um momento difícil, pois, desde sua morte, eu não tinha tido coragem de ter um novo contato com seus papéis, que estavam guardados exatamente como ele deixou", comenta Vera, que morou com o dramaturgo em um apartamento no bairro de Higienópolis. Nem mesmo ela sabe exatamente quantas peças Plínio escreveu ao longo de 42 anos de carreira. "Ele guardava desde recortes de jornais sobre os mais diversos assuntos - crimes, golpes, esportes - até peças inéditas."Vera está empenhada em manter viva a memória do dramaturgo, cuidando dos direitos de sua obra. No momento, além de organizar os papéis deixados por Plínio, a jornalista acerta com a Funarte a publicação de sua obra - o próprio escritor acertou com a entidade, em setembro de 1997, um contrato para a publicação das obras completas, provavelmente em três volumes."A idéia não era simplesmente publicar as peças, mas contextualizá-las", diz Vera. Ela iniciou a tarefa de pesquisa e organização e Plínio chegou a reescrever textos cujos originais havia perdido. "Ele estava muito disposto a organizar sua obra e preparar a publicação, apesar da imagem de pouco preocupado com os próprios escritos."Vera pretende assim evitar a repetição de histórias erradas. A atração pela vida mambembe, o gosto pelo papo de botequim e o tema de peças como Barrela, ambientada numa cela de cadeia, ou Navalha na Carne, num hotel de quinta categoria, contribuíram para forjar uma falsa imagem de Plínio Marcos. Muitos o confundiam com seus personagens e o viam como uma espécie de marginal, um dramaturgo talentoso e ignorante, imagem que ele mesmo reforçava em entrevistas nas quais se dizia "analfabeto".Outro estigma que pretende derrubar é o do "teatro místico" e o interesse pelo tarô, que marcaram a obra do dramaturgo em seus últimos anos. Segundo a jornalista, a herança é de seus tempos de circo, na década de 50, quando aprendeu a escrever diálogos. Outra explicação para a inquietação do dramaturgo está em um detalhe que muitas vezes passa despercebido: Plínio era canhoto - como era obrigado pelas professoras a escrever com a mão direita, ele foi reprovado três vezes até abandonar a escola e seguir para o circo, além de tentar a carreira de jogador de futebol.Generosidade - Plínio, reconhece a jornalista, era muito generoso com os amigos, a quem ofertava textos inéditos e até alguns dos prêmios que recebeu. "O que realmente ajudou para que boa parte do material mais antigo ainda estivesse conosco foi a disposição que a Walderez (de Barros) teve em arquivar originais, entrevistas e matérias publicadas a respeito do Plínio", afirma Vera, que recebeu todo o material.Vera conheceu o dramaturgo na década de 70 - jornalista da TV Cultura, Folha de S.Paulo e Editora Abril, entre outros, ela costumava entrevistar Plínio com certa freqüência, o que criou uma amizade até que decidiram morar juntos, em 1995. Também unidos, decidiram comprar o apartamento na Rua Maranhão, em Higienópolis, o que obrigou o escritor a deixar o edifício Copan.A convivência permitiu que Plínio desse continuidade à sua obra. No ano passado, por exemplo, o dramaturgo lançou o livro de contos O Truque dos Espelhos (Editora Una). O lançamento ocorreu no Gigetto, cantina do Bexiga. Ali, o casal jantava todas as noites e Plínio, mestre em entreter uma roda de amigos, costumava animar a mesa contando histórias.

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