Fumaças da vida e da morte

A vida nos surpreende com instantes que nos tocam fundo, fazendo com que pensemos em seus mistérios. Como uma cena do cotidiano de uma criança de Araraquara, nos anos 1940, pode se misturar ao contexto de uma família judaica de Bialistock, nordeste da Polônia, nos mesmos anos? Como pessoas tão distantes, de línguas, religiões, vida e hábitos diferentes, acabam tendo os mesmos sentimentos, sensações, memórias? Naqueles anos de guerra na Europa, no interior de São Paulo, nós crianças esperávamos, na casa da avó, a chegada do carrinho da padaria Passeto, que entregava pão quente, sobre o qual a manteiga derretia. Os netos de vovó Branca, sentados à mesa para o lanche das duas da tarde, aguardavam e quando a tampa do carrinho era aberta na rua o aroma dos pães, principalmente das roscas de coco, chegava até nós. Este perfume me acompanha até hoje.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2014 | 02h07

Praticamente nos mesmos instantes, em Bialistok, outro lado do oceano, leste da Europa, uma família sentia o aroma penetrante do bialy sendo assado na padaria, cheiro que acompanhou a todos pela vida. "O bialy é um pão redondo e fino, com o centro ligeiramente afundado (um movimento que se faz delicadamente com os polegares), o que o torna mais crocante, sendo que em volta ele é mais macio. Sobre esse centro cavado, coloca-se cebola e sementes de papoula, de preferência em quantidades generosas. O bom bialy deve ser escurinho e bem tostado. Mas nunca deve ser torrado posteriormente como um bagel... No centro do bialy, para muitos, o bom mesmo é uma porção de arenque defumado."

Bialy era o pão dos judeus de Bialystok, na Polônia. Os nazistas invadiram o país em 1941 e, ao chegar à cidade, encerraram dois mil judeus na Grande Sinagoga de madeira, ateando fogo ao edifício. Dois anos depois, aconteceu a Revolta do Gueto da cidade, uma luta feroz. Um padeiro salvou-se do extermínio, acabou sendo preso e mandado a um campo de concentração. Salvou-se por ser um mestre no seu ofício. Esta é uma história dura, ainda que poética e delicada, em torno da luta pela sobrevivência humana, enfrentando as atrocidades da SS alemã de Himmler. O oficial da SS que o levava para todos os campos, sempre dizia: "Judeu! Você faz o melhor pão, com os piores ingredientes".

A história nos vem contada por Michel Gorski e Silvia Zatz em um livro curto, denso e cativante, O Soprador (Editora Terceiro Nome), que resgata a tradição do bialy, transplantada para Buenos Aires, que, se acolheu nazistas depois da guerra, abrigou também judeus.

Foi em uma rotisseria em São Paulo, em Pinheiros, a Mesa Três, em um sábado de manhã, cheio de sol, que centenas de pessoas misturaram sensações como eu, em um lançamento original. Silvia e Michel autografavam O Soprador, para adultos, enquanto as ilustradoras Flavia Mielnik e Laura Gorski "autografavam" com desenhos um livro infantil, Irerê da Silva, também de Michel e Silvia. Os quatro estavam nas mesas da cozinha, próximos ao forno, de onde, a cada minuto, Ana Soares trazia bandejas de bialys fresquíssimos, cobertos por alvas toalhas, a fim de que o calor não escapasse.

Atrás de Ana, vinha Ique trazendo copinhos de schnaps gelado porque nada melhor que um bom schnaps para acompanhar o bialy de cebolas ou de tomate, de perfume intenso. No livro, assim se reuniam na padaria os amigos do "soprador", ou seja Berko, o padeiro. Autores assinavam, bialys passavam, schnaps gelado era tomado e, enquanto isso, o que eu fazia? Lia trechos do livro. Coisas de São Paulo, onde a manhã de sábado pode escorrer de maneiras diversas e lentas para o interior da tarde, enquanto amigos se encontram, pessoas se conhecem. Lia antecipando o prazer e nós todos nos emocionávamos, ao pensar naqueles judeus mortos em Bialystok, nos anos 40.

Deixei para o final, um dos episódios a meu ver mais fortes do livro. O soprador foi requisitado - como era comum - pelo comandante de um campo de extermínio para ser o padeiro dos oficiais. O pão o salvou. À medida que o comandante era transferido de Majdanek para Auschwitz-Birkenau, Blizin, Buchenwald, e outros, o soprador era levado junto. Os padeiros usavam máscaras para não comer as migalhas que sobravam. Ao sair, ficavam nus para mostrar que não levavam pão aos outros prisioneiros.

O horror é revelado em curto trecho. Em Majdanek, da janela da padaria se podia ver a chaminé do crematório. Não era segredo para ninguém. A morte fazia parte da rotina. De sua janela, o padeiro, em determinados dias, via a fumaça negra do crematório se misturar à fumaça branca que saía dos fornos de pão. Dois fornos opostos. O da criação e o da destruição. O da vida e o da morte. O do alimento e o da degenerescência.

Décadas mais tarde, em Buenos Aires, Berko, o padeiro, quis voltar a Bialistok. No consulado polonês não queriam lhe dar passaporte, ele não tinha documento algum. "Nada, nada? Um simples papel que prove que o senhor é polonês?" Berko pensou e, de repente, ergueu a manga da camisa, mostrando o número tatuado no braços: B-15. 927. B de Birkenau, que era ligado a Auschwitz. Imediatamente lhe deram o documento.

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