FTC: O fim, enfim

Após 11 dias trepidantes, em que o cidadão teve espetáculos ao seu dispor das dez da manhã às duas da madrugada, terminou, na noite deste sábado, a décima-primeira edição do Festival de Teatro de Curitiba. Foi a melhor versão do evento nos últimos anos. Apesar da impressionante quantidade de montagens listadas na Mostra de Teatro Contemporâneo e no Fringe (cerca de 150), o FTC não apresentou apenas números, mas qualidade. Se a festa teatral de Curitiba tornou-se uma vitrine sintética do teatro brasileiro, deve-se concluir que, apesar de tropeços e equívocos, ele está em boa fase. Em 2002 o FTC reuniu um grupo equilibrado de produções, agregando trabalhos muito diversos, que indicam uma animadora multiplicidade de linguagens cênicas e de investigações estéticas.Se não houve na Mostra nenhuma revelação retumbante, o festival curitibano confirmou o valor de diversas encenações. Foi indiscutível o sucesso popular de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, encenado por José Possi Neto. Impôs-se a qualidade da direção de Cibele Forjaz para Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams e a excelência da atuação de Leona Cavalli no papel de Blanche Dubois. Já Novas Diretrizes em Tempos de Paz atingiu rara unanimidade. Não se ouviu uma palavra discordante quanto à qualidade do texto de Bosco Brasil, a direção de Ariela Goldman e as interpretações de Pascoal da Conceição e de Dan Filip Stulbach.Entre as estréias, Mãe Coragem pôs a marcante Maria Alice Vergueiro, dirigida por Sérgio Ferrara, no papel escrito por Bertolt Brecht. Causaram impacto Almoço na Casa do Sr. Ludwig, de Bernhard Thomas, em versão gaúcha assinada por Luciano Alabarse, e Auto dos Bons Tratos, da Companhia do Latão, dirigida por Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano. Vindas do Rio, a buliçosa Meu Destino é Pecar, adaptação de Gilberto Gawronski do romance de Nelson Rodrigues, produzida pela Cia. dos Atores, e a sofisticada Viver, reunião de textos de Machado de Assis dirigida por Moacir Chaves, foram dois dos pontos altos da Mostra Contemporânea. Uma decepão da mostra foi a recifense Churchi Blues teatralização de um roteiro para cinema de João Silvério Trevisan produzida pelo Teatro de Seraphim e dirigida por Antônio Cadengue. Norma, de Tônio Carvalho e Dora Castellar, abriu espaço para uma boa atuação de Ana Lúcia Torre, uma atriz luminosa. Mas o drama, folhetinesco, não convenceu.No amplo panorama do Fringe, não há dúvida. Em meio à multiplicidade de propostas e resultados, a grande revelação foi o paulistano Grupo XIX, formado por estudantes de teatro da ECA/USP, que trouxe a Curitiba Hysteria, criação coletiva dirigida por Luiz Fernando Marques. A montagem despojada, emocionante, fala da condição feminina pesquisando casos de histeria feminina no Brasil do século 19. Discretamente interativa, Hysteria convida as mulheres da platéia a se reconhecerem nos casos clínicos que leva ao palco. Marques e suas cinco atrizes mostram que na essência da criação teatral está a visceralidade de seus intérpretes, sua capacidade de apreender e transmitir o que há de humano nos personagens. A esse desvendamento, o público reage com uma entrega incondicional.Resta agora ao FTC aprofundar e consolidar a visível melhora na programação e na organização registradas no evento que terminou, enfim, ontem.

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