Frustrações de um jovem no país dos desencantos

'A Educação Sentimental' provoca debate sobre o estilo de Gustave Flaubert

Francisco Quinteiro Pires, de O Estado de S. Paulo,

03 de outubro de 2009 | 16h00

Quando não tinha vontade de morrer, Frédéric Moreau sentia profunda tristeza. Perdido naquele intervalo paralisante entre o desejo e a ação, esse jovem sensível tinha tudo para dar certo, mas provou ser um indivíduo condenado à frustração. Protagonista de A Educação Sentimental (1869), "o romance mais desencantado de Flaubert, e talvez o mais belo", segundo Leyla Perrone-Moisés, professora emérita da USP, Frédéric agora pode exibir melhor os detalhes de sua história malsucedida ao leitor brasileiro. Fora de catálogo há anos, o clássico flaubertiano volta às livrarias com uma antiga tradução. Editado pela Nova Alexandria, A Educação Sentimental (leia crítica na página ao lado) foi traduzido por Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), poeta e jornalista português, e lançado pela Difel em 1959.

 

Veja também:

linkCompare as traduções da obra de Gustave Flaubert

 

"Casais Monteiro não percebeu a modernidade de Gustave Flaubert (1821-1880) em A Educação Sentimental." A afirmação é de Samuel Titan Jr., professor de literatura comparada da USP e tradutor, com o escritor Milton Hatoum, de Três Contos (Cosac Naify). Ele prepara, para 2010, nova tradução do romance, imbuída "pela consciência da modernidade" do autor francês. "A Educação Sentimental é o ponto de chegada do realismo de Balzac e Stendhal e o ponto de partida do modernismo de Proust, Joyce e Virginia Woolf", diz.

 

O romance, com a sua radicalidade narrativa, aponta para o século 20. "Essa é uma percepção verificada tanto nos traços macroscópicos da construção da trama e da concepção da aventura quanto nos traços microscópicos da escolha vocabular e da quebra de parágrafos."

 

Segundo Titan, nos pontos em que Flaubert é mais prosaico, Casais Monteiro adota um viés metaforizante. "Ele arredonda as frases e parágrafos para privilegiar o fluxo da ação", diz. Para ele, o tradutor português tem horror ao vazio narrativo, elemento central na obra de Flaubert. "O que admira em A Educação Sentimental são as lacunas entre parágrafos e até entre capítulos", diz.

 

O professor da USP diz que as suas opiniões não pertencem a "uma querela" sobre tradução. "Nesses traços pequenos, mas marcantes que o tradutor tem de considerar, revela-se alguma coisa que Flaubert quis capturar com a rede engenhosa e estranha do seu estilo." Titan define a estética flaubertiana em dois traços essenciais: a invenção do narrador impassível, que fala dos personagens sem emitir juízos, deixando o leitor solitário e à deriva, e a expansão do discurso indireto livre, que confunde as vozes dos personagens com a do narrador.

 

Tradutor de obras de franceses como Georges Perec e André Malraux, Ivo Barroso diz que Adolfo Casais Monteiro, além de A Educação Sentimental, "assinou outras traduções em que sua competência foi amplamente reconhecida". Colaborador do Suplemento Literário, do Estado, Casais Monteiro mudou para o Brasil em razão da ditadura salazarista. É autor de ensaios sobre gêneros literários, Manuel Bandeira, Antero de Quental e Fernando Pessoa, com quem se correspondeu.

 

"Fiquei contente em saber que a Nova Alexandria preferiu sua tradução a encomendar uma nova, que poderia incidir em alguns vezos censuráveis entre nossos jovens tradutores", diz Barroso. Entre os costumes merecedores de censura, ele aponta para "o de modernizar a linguagem e a lexicografia, tirando ao texto original o seu sabor de época". Esse tipo de trabalho, "de todo condenável", segundo Barroso, "equivaleria a fazer um copidesque nas obras de Machado de Assis, eliminando as mesóclises, as construções vernáculas, os termos raros ou que caíram em desuso". Ele afirma que a tradução de Casais Monteiro se tornou "clássica", assim como a de Os Trabalhadores do Mar (Victor Hugo), realizada por Machado.

 

Polêmica à parte, Samuel Titan Jr. diz que a atualidade de A Educação Sentimental está em captar "o sabor póstumo da burguesia" e "a substituição da aventura pela banalidade" no enredo romanesco. Ele se refere ao "resfriamento da vida política e social francesa", depois dos massacres pela Guarda Nacional em 1848 e do golpe de Estado de Luís Bonaparte. "Hoje existe esse tom melancólico, e nada parece apontar para um era de criatividade e pujança."

 

Para Leyla Perrone-Moisés, "desilusão pessoal e ceticismo político se juntam nesse romance". Segundo ela, "contrariamente ao título, que pressupõe uma aprendizagem e um progresso, a intriga de A Educação Sentimental não evolui". Prossegue: "É uma educação pela decepção e pelo malogro. No plano individual como no plano coletivo, Flaubert vê a falência dos ideais e a brutalidade da história". No plano individual, o enredo narra a paixão de Frédéric Moreau por uma mulher mais velha e casada - Marie Arnoux. O protagonista seria um alter ego de Flaubert que também se apaixonou por uma dama compromissada, a sra. Schlesinger.

 

O pano de fundo são as mudanças revolucionárias de 1848. "O ceticismo do romancista com relação a essa revolução não pode ser considerado reacionário, porque ele é geral, refere-se tanto à ambição argentária da burguesia quanto à ferocidade do povo", diz. Segundo Leyla, Flaubert chama à cena Karl Marx, para quem a história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa.

 

O comportamento cético de Flaubert, de acordo com a professora da USP, atinge até a capacidade da arte romanesca para relatar tempos tão sórdidos. "Sua correspondência revela as dúvidas que tinha quanto à viabilidade desse romance desprovido de linha mestra", diz, afirmando que o livro teve enorme influência sobre o século 20. "Henry James o reverenciava, e Franz Kafka, em suas cartas a Milena, dizia ‘ler integralmente A Educação Sentimental em voz alta’, sentindo-se como ‘filho espiritual’ de Flaubert."

 

Colunista do Caderno 2, Milton Hatoum destaca o ódio flaubertiano à burguesia. Ele classifica Frédéric como dono de "um caráter oportunista" e de "uma vida fracassada", marcada "pela mentira, pelo sonho de consumo, por uma atitude hesitante e instável diante da realidade". Associa a "lembrança consoladora de Frédéric" - cuja paixão pela sra. Arnoux nunca se concretizou - à visita malograda a um prostíbulo. Acompanhado do amigo Charles Deslauriers, o protagonista foge na hora agá. E a sua maior aventura não passará de uma frustração.

 

À pergunta da reportagem do Estado que extrapola a vida pessoal de Frédéric para debater a atualidade do clássico flaubertiano Leyla propõe outra interrogação. "Os acontecimentos históricos e políticos do século 20 e deste século autorizam-nos a ter uma visão positiva das ações humanas, e um prognóstico feliz para a humanidade?". Depois, ela mesma responde: "Se o ceticismo de Flaubert nos inclina à desilusão, sua lucidez nos ensina a vigilância. E seu romance, ao mesmo tempo que nos revela a fragilidade humana, continua demonstrando a capacidade, também humana, de aspirar à felicidade e de produzir coisas belas." Apesar do exemplo de Frédéric Moreau, nem tudo está perdido.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.