Fronteiras que contam história

Fronteiras que contam história

Terras, documentário de Maya Da-Rin, fala de geografia, ambiente e vidas na região entre Brasil, Colômbia e Peru

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

Grande documentarista, Eduardo Coutinho gosta de dizer que, num filme, tudo o que se pode documentar é o encontro do diretor com seu objeto. Coutinho adora filmar pessoas. Maya Da-Rin também filma pessoas, mas o objeto de seu (belo) Terras não são elas, mas a fronteira. Terras nasceu com essa proposta, de refletir sobre as fronteiras geográficas deste país imenso chamado Brasil. Poderia, talvez, ter escolhido Livramento, no Rio Grande do Sul, que faz fronteira com Rivera, no Uruguai. Basta atravessar uma rua e você já está em outro mundo. Outro - tudo parece tão igual.

Maya, filha de cineastas - Sandra Werneck e Sílvio Da-Rin -, estudou algumas possibilidades e optou por situar seu filme na fronteira tríplice entre Brasil, Colômbia e Peru, nas cidades gêmeas de Tabatinga, brasileira, de 48 mil habitantes, e Letícia, colombiana, com 30 mil. Como preparação para o trabalho, ela foi à região e, durante três dias, numa viagem de barco pela Amazônia peruana, fez Margem, que amanhã vai ser exibido na programação de filmes da 29.ª Bienal de São Paulo, que começa às 15 h no espaço A Pele do Invisível.

Margem teve patrocínio do Itaú. "Eles me deram o dinheiro e eu fui lá. Filmei durante três dias a viagem de barco, foi muito interessante. A região me atraiu e eu resolvi situar Terras naquela área. Desta vez, não tive patrocínio, mas foi uma experiência bem bacana. Desembarquei já com a câmera na mão, buscando personagens, decidida a encontrar meu tema." A fronteira de Terras não é só a geográfica, física. É também a das almas.

Terras conquistou vários prêmios, como o Cámaras de la Diversidad, no Festival de Guadalajara, no México; foi melhor filme, segundo o júri ABVC; recebeu o prêmio Especial do Júri, no 6.º Panorama Internacional Coisa de Cinema, no Brasil, e também o troféu Caríssima Liberdade, na 9.ª Mostra do Filme Livre. Todo esse reconhecimento lisonjeia a diretora de 31 anos que parece ainda mais jovem. Ela agradece pelo que não é propriamente um cumprimento, mas constatação. Conta como garimpou seus personagens. "Filmamos umas cem viagens de táxi, nos instalamos no porto, de onde saem os barcos." Locais de passagem, onde as pessoas vão e vêm.

Uma das cenas mais impressionantes de Terras - talvez a mais - mostra uma índia que avança pela floresta. Ela fala para a câmera. Com simplicidade, e objetividade, estabelece seu discurso. Se as pessoas nem admitiriam cortar um braço, uma perna de suas mães, porque não têm respeito nenhum pela mãe natureza e saem dilapidando o patrimônio que ela representa? Pachamama - a mãe Terra, que já foi tema de outros documentários, ressurge em Terras. Maya admite que recebeu influências profundas em casa. Ela não é do tipo que se recusa a falar das origens familiares ou que minimize a contribuição do pai e da mãe. "A família é que nos traz ao mundo", reflete.

A mãe, Sandra Werneck, começou documentarista (Profissão: Menino, A Guerra dos Meninos), virou diretora de ficção (Pequeno Dicionário Amoroso, Cazuza) e hoje alterna os dois formatos. O pai, Sílvio Da-Rin, é documentarista. "Ele me incentivou a pensar no documentário como um espaço de invenção e reformulação criativa, com múltiplas possibilidades e desdobramentos."

Com a mãe, extremamente focada, aprendeu que concentração e entrega são fundamentais na concretização de cada projeto. "Ela tem um olho muito atento para todos os elementos que formam um filme." Juntos, ensinaram a Maya que, não é por ser documentário que um filme deve estar menos preocupado com a linguagem. "Tudo é linguagem no cinema, tudo é invenção, mesmo quando a gente tem os pés na realidade."

Em 1937, num de seus clássicos - A Grande Ilusão -, querendo falar de guerra, Jean Renoir tratou da fronteira como uma invenção dos homens. Maya sabe que a fronteira pode ser uma abstração, uma linha traçada no papel. Interessa-lhe a fronteira real, que, para as pessoas, muitas vezes não existe. Terras intriga, ao mesmo tempo que esclarece.

Trailer. Veja trechos de Terras

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