Fronteiras da arte

Na peça Julia, a encenadora Christiane Jatahy discute os limites entre o cinema e o palco

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2012 | 03h09

O mundo da arte não tem fronteiras para a encenadora Christiane Jatahy, capaz de unir cinema e teatro sem provocar ruídos. Foi assim na peça Corte Seco, em que o espectador viajava para fora do teatro graças às imagens projetadas por câmeras de segurança; também no filme A Falta Que Nos Move, em que transgride o tempo ao mostrar uma ação contínua, como se fosse uma longa peça teatral. Agora, surge Julia, seu novo trabalho de investigação sobre as fronteiras da linguagem dramática, uma peça em que cinema e teatro se fundem para o surgimento de uma nova forma de expressão, que derruba muros tradicionais do entendimento e estimula a sensibilidade do espectador que comparecer, a partir de hoje, ao Sesc Belenzinho.

"Proponho um mergulho na emoção da arte", conta Christiane, que fez uma adaptação do clássico Senhorita Julia, de August Strindberg (1849-1912). Na verdade, uma atualização, o que demonstra outra intenção da encenadora: a de iniciar, a partir dessa montagem, uma trilogia, dessa vez explorando os limites entre o clássico e contemporâneo. Se Strindberg detalhou o romance impossível entre a filha de um conde e um criado, Christiane Jatahy faz o mesmo em Julia ao contar uma difícil história de amor nos dias atuais entre a filha de um rico empresário (vivida por Julia Bernat) e o chofer da família (Rodrigo dos Santos). Mas, no lugar da lupa usada pelo dramaturgo sueco, a diretora utiliza uma câmera de filmar para destrinchar o conflito.

A inovação da peça começa por aí, pois o teatro se faz cinema ao vivo e as estruturas cinematográficas são expostas. Com cenas pré-filmadas e outras gravadas ao vivo, o público acompanha a construção de um longa de cinema. E, durante o processo, há cenas que só podem ser vistas graças à presença real do ator, outras por meio do que é captado pela lente da câmera e projetado em um telão.

"É um jogo do olhar", observa Christiane, que adicionou ainda um ingrediente moderno ao conflito amoroso - a invasão de privacidade. Assim, a lente da câmera (manipulada pelo cinegrafista David Pacheco) representa também o olhar opressor do pai da menina. "A imagem da câmera é como um testemunho permanente, invadindo e construindo junto com o olhar do público esse encontro atual e urgente."

Com isso, Júlia comprova que o cinema não é necessariamente uma manifestação de algo que já passou, mas que, como o teatro, pode ter vínculo com o presente. O processo de elaboração foi longo (três meses) e detalhado. Christiane conta que todas as movimentações dos atores foram marcadas e ensaiadas para que dessem a impressão de espontaneidade. Também houve a necessidade de se encontrar um equilíbrio na forma de representar pois, se o espaço mais aberto do teatro permite uma expansividade, o cinema, por captar detalhes, pede mais uma contenção.

Christiane Jatahy decidiu também filmar a peça para um trabalho futuro e, a partir do material já registrado, ela repensou o tempo da peça. "A emoção ao vivo é registrada na tela, que é passado quando se vê", comenta. "Com isso, é possível estimular diversas formas de se buscar a verdade."

Festival. A peça Julia inicia um festival que vai homenagear August Strindberg, no centenário de sua morte. Uma programação especial em homenagem ao autor vai ocorrer nas unidades do Sesc do Belenzinho, Bom Retiro, Ipiranga e de Santo Amaro - são espetáculos teatrais (quatro montagens inéditas, três reestreias e um work in progress), uma exposição, seis leituras dramáticas e quatro debates com mediação de Denise Weinberg. A curadoria é de Nicole Cordery (mestre em Strindberg na Sorbonne Nouvelle em Paris) e Flavio Barollo, ator e produtor da Cia Mamba.

Três montagens foram concebidas especialmente para a mostra: A Mais Forte, com direção de Eduardo Tolentino (peça curta de 15 minutos de Strindberg); O Livro da Grande Desordem e da Infinita Coerência, de André Guerreiro (montagem que une fragmentos da peça O Sonho e do romance autobiográfico Inferno); e A Noite das Tríbades, de Per Olov Enquist, dirigida por Malu Bazan e na qual Strindberg surge como personagem: ele e sua mulher Siri Von Essen tentam ensaiar A Mais Forte em um teatro decadente de Copenhague.

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