Fritz lang o mestre em hollywood

Três caixas com nove filmes resumem metade da fase americana do cineasta

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h12

Mais conhecido como autor dos clássicos Metrópolis e O Vampiro de Düsseldorf, além da série de filmes com o personagem Mabuse, o cineasta vienense (naturalizado americano) Fritz Lang (1890-1976) realizou nos EUA alguns dos melhores filmes do gênero "noir". Nove deles estão reunidos em três caixas que chegam ao mercado a partir deste mês pela distribuidora Versátil Home Vídeo, começando pela edição de três títulos inéditos em DVD no Brasil: Quando Desceram as Trevas (Ministry of Fear, 1943), Um Retrato de Mulher (The Woman in the Window, 1944) e O Segredo da Porta Fechada (Secret Beyond the Door, 1948).

O segundo volume da coleção (lançamento em junho) vai trazer Suplício de uma Alma (Beyond a Reasonable Doubt, 1956), No Silêncio de uma Cidade (While the City Sleeps, 1956) e Desejo Humano (Human Desire, 1954). Finalmente, o terceiro volume, programado para o segundo semestre, tem como atração principal O Homem Que Quis Matar Hitler (Man Hunt, 1941), seguido de O Tesouro do Barba Rubra (Moonfleet, 1954) e Guerrilheiros das Filipinas (American Guerrilla in the Philippines, 1950). Todos esses filmes terão lançamentos individuais, pouco antes da chegada dessas caixas ao mercado.

Lang fez mais de 20 filmes nos EUA, sendo o primeiro deles Fúria (Fury, 1936), sobre um trabalhador (Spencer Tracy) que, às vésperas do casamento com Sylvia Sidney, é confundido com um sequestrador e detido pela polícia. Nele, o cineasta, fugindo do nazismo na Alemanha, transforma a possibilidade de linchamento do homem numa representação metafórica da violência irracional da multidão que, no clássico O Vampiro de Düsseldorf (M, 1931), persegue o assassino de crianças. Liberal com ideias democráticas, Lang usou Hollywood como veículo de seu credo antitotalitário, que o fez abandonar a Alemanha quando Hitler chegou ao poder.

Quando Desceram as Trevas é um exemplo de seu exercício político com toda a sofisticação formal que caracteriza a obra do diretor, repleta de objetos alegóricos - relógios ameaçadores, que controlam a vida dos personagens (como em Metrópolis), espelhos sinistros usados como projeção de obsessões e escadas que conduzem à decadência dos personagens. No filme, um paranoico (Ray Milland), ao deixar o manicômio judicial, envolve-se numa trama de espionagem em que os vilões - claro - são terroristas ligados a um grupo nazista que age na Inglaterra. Lang explora os efeitos da nazificação na Alemanha de forma sutil, relacionando o controle dos cidadãos ao relógio que surge nos créditos para atormentar Milland, primeira das muitas imagens circulares que vão colocar seu personagem numa enrascada em seu caminho de volta ao lar.

Lang adaptou com ligeiras modificações o romance homônimo de Graham Greene - o personagem Rowe, que no livro envenena a mulher, no filme sente-se culpado pelo suicídio assistido da companheira. O diretor, contudo, parece mais interessado no confronto entre o mundo lógico do inspetor da Scotland Yard e a insegurança do egresso do manicômio judiciário, cuja história lhe parece um tanto inconvincente. O interesse do cineasta por seres mentalmente perturbados o levaria a rodar quatro anos mais tarde O Segredo da Porta Fechada, em que um enigmático arquiteto (Michael Redgrave), fixado na figura materna, aterroriza a mulher (Joan Bennett) com a possibilidade de ser um assassino de ex-esposas.

Atento ao significado moral de um contrato social como o casamento, nos EUA, Lang realizou antes dele o pequeno grande filme Um Retrato de Mulher, sobre um professor casado atraído por bela modelo retratada numa tela. A sequência inicial é uma clara demonstração da capacidade de síntese do cineasta: distraído, após deixar esposa e dois filhos na estação, a caminho das férias, o professor (Edward G. Robinson) observa a pintura na vitrine de uma galeria - que reflete a imagem real da beldade junto ao futuro amante, posteriormente envolvido num crime, como se punido por trair a mulher.

O temor do americano médio diante da transgressão conjugal é explorado por Lang com graça no epílogo - a mesma que surpreende o público na derradeira sequência de Quando Desceram as Trevas.

O humor que flerta com o espectador, colocando por terra os clichês das leituras freudianas apressadas, é o mesmo ao que o cineasta inglês Alfred Hitchcock (1899-1980) recorreria mais tarde em seus filmes. O Lang da fase americana, no entanto, foi subestimado na época e só valorizado pelos críticos franceses - entre eles o diretor Jean-Luc Godard, que o dirigiria em O Desprezo. Certo é que seus filmes anunciaram, ainda nos anos 1930, a onda noir que dominaria as produções dos grandes estúdios hollywoodianos, marcando a estética que identifica, por exemplo, os nomes Warner e Columbia .

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