Jean Blondin/Reuters
Jean Blondin/Reuters

Frisson na sala de imprensa: ''É o príncipe! é o príncipe!''

Mostra em Marrakesh, no Marrocos, mescla produção local com Hollywood

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h00

A cena é, no mínimo, ótima para se usar o velho clichê de cinema: dezenas de jornalistas trabalham sem parar, vidrados nas telas de seus computadores, em mais uma sala de imprensa de mais um grande festival do mundo. Mas eis que, em sala tão pouco glamourosa, entra o príncipe do país, grande incentivador e patrocinador do tal festival. Todos os súditos se levantam e permanecem em silêncio respeitoso até que o príncipe aperte a mão de cada um deles. Os jornalistas, em euforia contida, repetem baixinho para os vizinhos de mesa: "É o príncipe! É o príncipe!"

Em qual festival do mundo uma cena dessas seria possível senão o do Marrocos? Pois assim se passou na tarde de sexta-feira do Festival Internacional de Cinema de Marrakesh, quando o príncipe Moulay Hassan, filho do Rei Mohammed VI, que governa o país, resolveu visitar os jornalistas e conferir o que a "imprensa oficial" do evento preparava para o vídeo que seria exibido antes da sessão daquela noite.

De fato, o vídeo era importante, afinal se tratava da última noite de competição, antes da premiação na noite de sábado, da histórica décima edição do festival. Na verdade, o que se tem a comemorar é feito muito mais importante do que trazer à cidade estrelas do naipe de Susan Sarandon, Harvey Keitel, Keanu Reeves, Marion Cotrillard, Isabelle Huppert, Philip Seymor Hoffman, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Gael Garcia Bernal, Marjane Satrapi, Charlotte Rampling, Barry Levinson, Eva Mendes, Luc e Jean-Pierre Dardenne, entre outros.

Mérito. "É claro que a atenção que a passagem que estas celebridades trazem é ótima para o festival. Você, por exemplo, não vem lá do Brasil para assistir só aos filmes do Oriente Médio. No entanto, mais que promover uma festa em que desfilam os famosos de Hollywood, incentivar a produção local e ser ponto de encontro dos diretores nacionais, que antes andavam e produziam dispersos pelo país, é o maior mérito deste festival", comentou o príncipe, quando indagado pelo Estado, em sua passagem relâmpago pela sala de imprensa.

Os jornalistas locais, as estrelas internacionais e o locutor da maior rádio do Marrocos (que pediu para não se identificar) concordam. "Muitos dizem que há censura, que não podemos falar de todos os assuntos que queremos. Não é verdade. Analise os filmes que estão sendo exibidos e você vai ver que os temas são os mais variados possíveis. Só há dois assuntos sobre os quais não é bom falar: o Rei e o conflito do Saara. De resto, temos toda liberdade", comentou o radialista.

A julgar pelos filmes em competição, chega-se à conclusão de que a seleção não só é variada como ousada. Estão lá filmes que passaram por outros grandes festivais, como Cannes, Veneza, Berlim, outros que fazem aqui sua première mundial.

É o caso de Quando Partimos, da austríaca Feo Aladag, que revela com maestria a condição da mulher islâmica, ao contar a história de uma jovem turca que vive na Alemanha e decide deixar o marido violento. E também o mezzo brasileiro mezzo dinamarquês Rosa Morena, de Carlos Augusto de Oliveira, sobre um dinamarquês que decide adotar uma criança no Brasil. Outra boa surpresa é Jack Goes Boating, longa de estreia de Seymor Hoffman na direção, que conta a história de um motorista de limusine que decide mudar de vida ao se apaixonar.

História. "É de fato especial poder mostrar um filme no Marrocos. É um país que, além de acolher sempre tão bem seus convidados, tem a tradição de ser palco de grandes filmes da história", comentaram várias celebridades, como Hoffman, Sarandon, Scorsese e Keitel quando questionados sobre a relevância e a importância de participar do Festival de Marrakesh.

De fato, o país tem sido cenário de clássicos do cinema há décadas. De Cleópatra a A Múmia, passando pela trilogia Bourne, o Marrocos sempre ofereceu locações perfeitas, facilidades que outros países do Oriente (ainda que o Marrocos esteja localizado no norte da África, suas locações em geral se fazem passar pelo Oriente Médio) e muita hospitalidade. "Mas não pode ser só isso. O cinema de um país não se faz só com film comissions", comenta o diretor alemão Volker Schlöndorff ao Estado. Presidente do júri da mostra que é a "rosa do deserto" do festival, a Cinécoles, a competição de curtas metragens, Schlöndorff defende que só com o estímulo da produção local é que o festival de fato atravessará outros dez anos com saúde. "Acredito que o Marrocos precise realmente fortalecer seu cinema interno. Cinema é a ferramenta que mantém um país unido. Quando a gente assiste a um filme junto, criamos uma sensação de pertencer a uma comunidade", defendeu.

Se depender dos números, o desejo de Schlölodorff será cumprido. "Nestes dez anos, saltamos de uma produção muito esporádica para o número de 24 filmes produzidos no Marrocos só em 2010. Claro que o nosso cinema ainda precisa do auxílio do Rei, ou do Estado, mas qual cinema no mundo, com raras exceções, não precisa?", comentou o jovem diretor marroquino El Mehdi Azzam.

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