Fringe vai além das estréias nacionais

Com ação ambientada no século 16,estréia nesta quarta-feira na mostra principal do 11.º Festival de Teatro deCuritiba o espetáculo Auto dos Bons Tratos, da Cia. doLatão. Com texto e direção de Sérgio Carvalho e Márcio Marciano,a montagem baseia-se em pesquisa histórica e pretende mostrar asraízes do autoritarismo na formação da nação brasileira. Comotoda estréia, a qualidade da montagem ainda é uma incógnita. Masuma coisa é garantida. Uma casa lotada espera a Cia. do Latão. A afluência do público merece destaque no festival quecompleta amanhã o sétimo dia e termina no domingo. Um BondeChamado Desejo, de Tennessee Williams, com Leona Cavalli, aestréia de hoje à noite na mostra principal, teve seus ingressosesgotados rapidamente. Terá sessão extra à meia-noite e é grandea solicitação do público por outras sessões. Não é um casoisolado nem se restringe aos pequenos teatros. O Evangelho Segundo Jesus Cristo fez duasapresentações com casa cheia no Teatro Guaíra, que tem 2,2 millugares. E o fenômeno se repete no Fringe. No domingo, cadeirasextras ocuparam o palco na última das três sessões de Baladasde Oscar Wilde, produção carioca dirigida por Nara Keiserman.A produção curitibana As Richas, também apresentada noFringe, está entre outras que tentam realizar uma sessão extra,uma operação difícil num festival que tem 136 peças na mostraparalela, com alguns teatros abrigando até cinco espetáculosdiferentes por dia, com sessões do meio-dia até à meia-noite. A significativa afluência do público à maioria dosespetáculos não é um fenômeno desprezível se levarmos em contaque, só hoje, a cidade abrigará ao todo 52 sessões dos maisdiversos gêneros de montagens. E a julgar pela reação dessepúblico, suas expectativas não vêm sendo frustradas, ainda quemuitas vezes, principalmente no Fringe, essa reação estejadivorciada da avaliação da crítica especializada. Na programação da mostra principal, a organização dofestival optou por mesclar estréias nacionais com espetáculosque já cumpriram temporada em suas cidades de origem comaprovação de público e crítica. As possíveis surpresas, portantoficam mesmo por conta dos espetáculos que fazem suas estréiasnacionais no evento. Três delas ocorridas nesta primeira metadeda programação: Almoço na Casa do Sr. Ludwig, Mãe Corageme Seus Filhos e O Conto da Ilha Desconhecida. Enquanto Almoço correspondeu à expectativa positivaque cercava o espetáculo e até superou no que diz respeito àatuação do ator Luiz Paulo Vasconcellos, Mãe Coragemapresentou problemas típicos de estréia e O Conto, adaptaçãode texto de Saramago, apesar de algumas boas soluções de direçãonão conseguiram superar as deficiências do elenco amador. Em Mãe Coragem, o diretor Sérgio Ferrara evitou"leituras" e optou por apoiar-se no elenco para contar ahistória da vendedora ambulante, uma mulher forte e determinadaa sobreviver em meio a uma longa guerra, mas que não fica impuneao massacre sofrido por toda a população, sempre à mercê dedecisões superiores. O público riu logo na primeira cena, naqual o sargento, interpretado por José Rubens Chachá, discursasobre "as vantagens da guerra" numa cena que antecipa a opçãopor um "Brecht moleque" com pitadas de humor "à brasileira´.Essa é também a linha da tradução assinada por Alberto Guzik,Maria Alice Vergueiro e Sérgio Ferrara que, entre outrasliberdades, põe na boca dos personagens sonoros palavrões. A linha escolhida por Ferrara está evidente na atuaçãode Chachá no papel do Capelão ou de Rubens Caribé como o filhovalente e inescrupuloso. Mas aparece sobretudo na interpretaçãode Maria Alice Vergueiro. Com seu inegável talento, a atrizpassou longe de ficar presa à chave única da determinação e daforça da personagem. Um dos méritos de sua interpretação é imprimir à suaMãe Coragem uma alegria de viver que só será quebrada pelador profunda causada pela tragédia da perda de seus filhos epela destruição ao seu redor. Porém, os demais elementos cênicosnão acompanham essa mesma curva que vai da sobrevivênciapossível, e quase alegre, até o destroçamento emocional ematerial. O cenário de J.C. Serroni, funcional na resolução dassituações, não traz para o palco a curva ascendente de desolaçãodas cidades e dos campos. Tampouco os figurinos. Ferrara tenta uma síntese dessadestruição na cena final, no desfile de um regimento demutilados. Mas, mesmo aí, a imagem é amena diante da tragédiatrazida pelo texto. Mal acomodado no Guairinha, o cenário tevede ser esprimido no centro do pequeno palco, única alternativapara facilitar a visão das laterais, o que dificultava a manobrada carroça. Pelo menos na noite de estréia, esses problemasparecem ter afetado o ritmo e o vigor do elenco, especialmentenos números musicais. Na cena final, as dobras da lona do pisosob as rodas da carroça provocaram perigoso tombo de MariaAlice. Para agravar, Ferrara optou por um recurso do cinemamudo, projetando textos numa tela ao fundo do palco para marcara passagem do tempo. Escrito em letras góticas, eram lidos commuita dificuldade no fundo da sala. "O que está escrito?",perguntavam os espectadores, provocando um distanciamento nãodesejado pelo diretor. Mas esses são problemas técnicos quesempre podem ser ajustados ao longo da temporada. * A repórter viajou a convite da organização do festival

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