Freyre como artista e escritor, em Paraty

Homenagem ao pernambucano inclui mostra com cartas e caricaturas

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2010 | 00h00

Londres. Em caricatura de 1923, Freyre retrata a si próprio (à dir.) jantando com Antônio Torres

 

 

 

 

Muito antes de se tornar o mais conhecido estudioso da sociedade brasileira, Gilberto Freyre (1900-1987) era uma espécie de colecionador de fragmentos da própria vida. Não tinha como saber se alguém viria a se interessar por isso, mas, ainda muito jovem, passou a reunir cartas recebidas do pai e de amigos, manuscritos, rabiscos e qualquer outro papel no qual visse potencial para documento, inclusive cardápios de restaurantes. Foi por isso que, da primeira vez que Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke chegou à casa onde o sociólogo e antropólogo viveu em Recife, atual a Fundação Gilberto Freyre, levou um susto.

 "Imagine uma casa enorme cheia de papel. Uma sala tinha papel deitado do chão até o teto. A riqueza do que vi por lá é enorme, ou melhor, pelo menos o que não foi comido por cupim", lembra a historiadora, que foi convidada em janeiro deste ano pela organização da Flip para atuar como curadora da homenagem a Freyre na oitava edição da festa literária, que começa na quarta-feira. "O material na casa está sendo organizado pouco a pouco pelas pessoas da fundação, porque é muito difícil conseguir pessoal e dinheiro para isso."

A quantidade de documentos a levou a pensar em, além dos debates na Tenda dos Autores a respeito do pernambucano, organizar em Paraty uma exposição que desse a dimensão das experiências que o levaram a se tornar quem se tornou. "Ele dizia "Sou um conjunto de eus", e era isso o que a gente queria passar. Gilberto Freyre não é só Casa-Grande & Senzala, embora em geral seja apenas isso o que as pessoas sabem sobre ele. Procuramos pensar nesse público tão variado que estará em Paraty e o que seria interessante apresentar de novidade para ele."

A mostra ficará em cartaz durante a festa literária no espaço em frente à Tenda dos Autores e focará principalmente o lado artístico de Freyre, como escritor e ilustrador. Entre o material selecionado, há trechos de cartas de Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, José Lins do Rego, Jorge Amado e outros autores com quem ele se correspondeu e para muitos dos quais ele era, segundo Maria Lúcia, uma espécie de mentor. A proposta é que o visitante de Paraty conheça, em ordem cronológica, a vida de Gilberto Freyre desde seu período formativo até a morte, mas "sem que isso seja exaustivo". Haverá ainda fotografias, manuscritos e uma série de comentários de Freyre e de outros intelectuais, como Darcy Ribeiro, sobre o seu pendor para a escrita literária. 

Embora não seja o objeto central, o clássico Casa-Grande & Senzala também será lembrado, por meio de fragmentos de textos que deem a dimensão do modo característico de Gilberto Freyre escrever, "muito sarcástico, cheio de espírito, engraçado", como descreve a historiadora. "Será uma antologia de trechos do livro que leve as pessoas que ainda não o leram a ter vontade de fazê-lo", diz.

 

Artista. Se esse "lado escritor" é pouco conhecido de boa parte do público, como imagina Maria Lúcia, menos ainda é sua verve caricaturista. Parte dos documentos expostos em Paraty serão desenhos que o pernambucano, que também era pintor, fez ao longo da vida - e que lhe renderam elogios desde a infância, quando, com dificuldade para aprender a escrever, ele fazia a avó acreditar que sofria de algum retardo mental.

Em seu próprio traço, o jovem Freyre aparece baixinho e franzino durante suas andanças nos anos 20 pelos Estados Unidos, onde estudou (na Universidade de Columbia) e pela Europa. Em 1922, retrata-se ao lado de um imenso Oliveira Lima, o embaixador do Brasil em Washington; junto ao polímata bengali Rabindranath Tagore, desta vez em Nova York; no ateliê de Vicente do Rego Monteiro, em Paris. No ano seguinte, ilustra um jantar com Antonio Torres em Londres e uma visita ao crítico literário português Fidelino Figueiredo. "Muitas dessas caricaturas são inéditas para o público, porque estavam perdidas nos arquivos dele", diz Maria Lúcia. 

 

Surpresa. A historiadora, que participará de uma das mesas sobre o sociólogo na Tenda dos Autores - na sexta, ao lado do africanista Alberto da Costa e Silva e da socióloga Ângela Alonso -, diz que "causou surpresa" entre pessoas com quem conversou o fato de ter convidado para o debate em torno do autor intelectuais que não são propriamente "gilbertólogos", como o escritor Moacyr Scliar e o sociólogo José de Souza Martins. "Assim como quisemos dar uma visão mais abrangente da variedade de tópicos que ele tratou, também procuramos convidar especialistas de outras áreas interessados em dialogar com as ideias dele, algo que pode ser enriquecedor."

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