Freyre, a contradição constante

Peter Burke. Conceito de mestiçagem revisto  

Laura Greenhalgh ENVIADA ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2010 | 00h00

 

 

Homenagens correm o risco de se tornar laudatórias. Mas a Flip se desviou do perigo ao escolher como homenageado deste ano o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987). Intelectual contraditório, com posições políticas indefensáveis e arredio aos cânones acadêmicos, Freyre rendeu conversa para três mesas em torno da sua trajetória e obra, fora a conferência inaugural, onde foi dissecado pelo também sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Somadas as atividades em torno do autor de Casa-Grande & Senzala, a impressão que fica é a de que Freyre continua sendo uma equação que não fecha. Ele próprio recorria a categorias inusitadas na tentativa de se explicar: "Sou acatólico, pós-marxista e inacadêmico."

Um elenco de intelectuais e pesquisadores foi recrutado para debater Freyre ao longo da Flip. A conferência feita por Fernando Henrique confrontou o pernambucano com as correntes de pensamento do seu tempo. FHC explicou por que Freyre foi criticado pela escola paulista de sociologia. "Não há dúvida de que Florestan Fernandes e Roger Bastide promoveram uma reviravolta nos estudos de raça no Brasil. Começamos a fazer pesquisa, orientados por eles, e vimos que não batia com o que vinha de Freyre. Havia discriminação contra o negro e nada nos remetia à ideia de democracia racial", salientou o ex-presidente. FHC argumentou que o autor pensava como antropólogo, produzia como ensaísta e virava as costas ao cientificismo acadêmico. "Ao passo que nós, na sociologia da USP, dávamos aula até de avental branco", ironizou.

Em vários momentos os debatedores focalizaram o estilo solto e sedutor da escrita de Freyre. O historiador Ricardo Benzaquen falou de um certo inacabamento do texto, algo a ver com a oralidade e a tradição do ensaísmo. O domínio da linguagem era tanto, que Freyre chegou a usar palavras chulas em seus livros, lembrou o crítico literário Edson Nery da Fonseca: "E foi duramente criticado por Afonso Arinos." Embora possa ter idealizado a situação do negro, ousou demonstrar que, em certas partes do País, os escravos eram culturalmente superiores aos colonizadores, aspecto ressaltado não só por Nery da Fonseca, como pelo africanista Alberto da Costa e Silva.

Livros menos conhecidos foram revistos: Nordeste, Ingleses no Brasil e Ordem e Progresso. Costa e Silva falou dos microensaios de Nordeste - sobre canoas, casas, cavalos, o hábito do cafuné, entre outros temas -, valorização do mundo das coisas pequenas. Já a historiadora Maria Lúcia Palhares Burke trouxe à tona o "amor quase físico" de Freyre pela cultura inglesa, enquanto a socióloga Angela Alonso, ao analisar Ordem e Progresso, sobre a desagragação da sociedade patriarcal, ressaltou a visão de uma civilização tolerante, plástica, tropical.

O ciclo freyriano na Flip prova como o conceito de mestiçagem foi desdobrado por Freyre, "não só na literatura, mas na política e até no sexo", sublinha o historiador Peter Burke. Ao que o sociólogo José de Souza Martins agrega: "Sua sociologia não pode ser vista, hoje, do mesmo lugar de quando foi produzida."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.